domingo, 6 de julho de 2008

Deus e o Diabo na Terra do Sol,Brasil,1964
Minha nota: [8,0] -

Por Wendell Borges - 06/07/2008

Comentário: O diretor Gláuber Rocha (1939-1981) escreveu este filme ao lado de Walter Lima Jr (1938- dirigiu entre outros filmes A ostra e o Vento) baseando-se no misticismo do povo nordestino e na luta humana do bem contra o mal sempre representados nas figuras de Deus e do Diabo. Filmado de forma bastante caricata em alguns momentos e com uma narrativa lenta, a intenção do diretor é clara em mostrar a complexidade do jogo político e de como o sofrimento humano e a religião podem deixar as pessoas ensandecidas ao ponto de fazer sacrifícios em nome de Deus. A figura da personagem Manuel (Geraldo Del Rey 1930-1993) representa o povo sempre indeciso e um joguete nas mãos tanto da religião quanto da violência e dos descasos da lei. Após matar o coronel Moraes (Milton Roda) ele foge com sua esposa Rosa (Yoná Magalhães 1935) para juntar-se ao grupo de seguidores do beato Sebastião (Lídio Silva), o governo e a igreja contratam Antônio das Mortes (Maurício do Valle 1928-1994) para acabar com o levante popular em Monte Santo que o governo teme transformar-se em uma nova Canudos (1896-1897 - Movimento de fundo sócio-religioso) e também matar o cangaceiro Corisco vivido pelo ator Othon Bastos (1933). Os belíssimos planos gerais do sertão e a atmosfera onírica e poética das imagens de Glauber neste trabalho lhe valeram diversas premiações o que culminou futuramente pelo reconhecimento da crítica européia quando ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes por seu trabalho em O Dragão da maldade contra o santo guerreiro em 1968.

Sinopse: O Sertanejo Manoel e sua mulher Rosa levam uma vida sofrida no interior do país, uma terra desolada e marcada pela seca. No entanto, Manoel tem um plano: usar o lucro obtido na partilha do gado com o coronel para comprar um pedaço de terra. Quando leva o gado para a cidade, alguns animais morrem no percurso. Chegado o momento da partilha, o coronel diz que não vai dar nada ao sertanejo, porque o gado que morreu era dele, ao passo que o que chegou vivo era seu. Manoel se irrita, mata o coronel e foge para casa. Ele e sua esposa resolvem ir embora, deixando tudo para trás. Manoel decide juntar-se a um grupo religioso liderado por um santo (Sebastião)que lutava contra os grandes latifundiários e em busca do paraíso após a morte. Os latifundiários decidem contratar Antônio das Mortes para perseguir e matar o grupo.


Ficha Técnica: Ficção, longa-metragem, 35mm, preto e branco. Rio de Janeiro, 1964, 3.400 metros,125 minutos; Companhia produtora: Copacabana Filmes; Distribuição: Copacabana Filmes; Lançamento: 10 de julho de 1964, Rio de Janeiro (Caruso, Bruni-Flamengo e Ópera); Produtor: Luiz Augusto Mendes; Produtores associados: Jarbas Barbosa, Glauber Rocha; Diretor de produção: Agnaldo Azevedo; Diretor: Glauber Rocha; Assistentes de direção: Paulo Gil Soares, Walter Lima.Jr.; Argumentista: Glauber Rocha; Roteiristas: Glauber Rocha, Walter Lima Jr.; Diálogos: Glauber Rocha, Paulo Gil Soares; Direção de fotografia e câmera: Waldemar Lima; Cenógrafo e Figurinista: Paulo Gil Soares; Letreiros: Lygia Pape;Gravuras: Calasans Neto; Cartaz: Rogério Duarte; Música: Villa-Lobos; Canções: Sérgio Ricardo (melodia), Glauber Rocha (letra); Violão e voz: Sérgio Ricardo; Continuidade: Walter Lima Jr.; Locações: Monte Santo, Feira de Santana, Salvador, Canché (Cocorobó), Canudos (BA); Prêmios: Prêmio da Crítica Mexicana - Festival Internacional de Acapulco, México, 1964; Grande Prêmio Festival de Cinema Livre, Itália, 1964; Náiade de Ouro - Festival Internacional de Porreta Terme, Itália, 1964; Troféu Saci/ Melhor Ator Coadjuvante: Maurício do Valle, 1965; Grande Prêmio Latino Americano - I Festival Internacional de Mar del Plata, Argentina, 1966. Elenco: Geraldo Del Rey - Manuel; Yoná Magalhães - Rosa; Maurício do Valle - Antonio das Mortes; Othon Bastos - Corisco, Lídio Silva - Sebastião; Sônia dos Humildes - Dadá; Marrom - Cego Julio; Antônio Pinto - Coronel; João Gama - Padre; Milton Roda - Coronel Moraes; Roque; Moradores de Monte Santo.

Premiações
- Ganhou o Grande Prêmio Latino-Americano, no Festival de Mar del Plata.

- Ganhou o Prêmio da Crítica Mexicana, no Festival de Acapulco.

- Ganhou o Grande Prêmio do Festival de Cinema Livre, na Itália.

- Ganhou o Náiade de Ouro, no Festival de Porreta Terme.

- Ganhou o Troféu Saci de Melhor Ator Coadjuvante (Maurício do Valle).


Curiosidades
- Foi rodado nos municípios de Monte Santo, Feira de Santana, Salvador, Canché e Canudos, todos no estado da Bahia.

- Foi lançado no Rio de Janeiro em 10 de julho de 1964, nos cinemas Caruso, Ópera e Bruni-Flamengo.


Biografia de Gláuber Rocha (Fonte Wikipedia)

Filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e de Lúcia Mendes de Andrade Rocha, Glauber Rocha nasceu na pequena cidade de Vitória da Conquista, hoje cidade de médio porte e um centro regional importante no sudoeste baiano.

Foi criado na religião da mãe, que era convertida ao presbiterianismo por ação de missionários americanos da Missão Brasil Central.

Alfabetizado pela mãe, estudou no Colégio do Padre Palmeira - instituição transplantada pelo padre Luís Soares Palmeira de Caetité (então o principal núcleo cultural do interior do Estado).

Em 1947 mudou-se com a família para Salvador, onde seguiu os estudos no Colégio 2 de Julho, dirigido pela Missão Presbiteriana, ainda hoje uma das principais escolas da cidade.

Ali, escrevendo e atuando numa peça, seu talento e vocação foram revelados para as artes performativas. Participou em programas de rádio, grupos de teatro e cinema amadores, e até do movimento estudantil, curiosamente ligado ao Integralismo.

Começou a realizar filmagens (seu filme Pátio, de 1959, é o primeiro curta-metragem da Bahia) , ao mesmo tempo em que ingressou na Faculdade de Direito da Bahia (hoje da Universidade Federal da Bahia, entre 1959 a 1961), que logo abandonou para iniciar uma breve carreira jornalística, em que o foco era sempre sua paixão pelo cinema. Da faculdade foi o seu namoro e casamento com uma colega, Helena Ignez.

Sempre controvertido, escreveu e pensou cinema. Queria uma arte engajada ao pensamento e pregava uma nova estética, uma revisão crítica da realidade. Era visto pela ditadura militar que se instalou no país, em 1964, como um elemento subversivo.

No livro 1968 - O ano que não terminou, Zuenir Ventura registra como foi a primeira vez que Glauber fez uso da maconha, decepcionando a todos - bem como o fato de, segundo Glauber, esta droga ter seu consumo introduzido na juventude como parte dos trabalhos da CIA (Agência Americana de Inteligência) no Brasil.

Em 1971, com a radicalização do regime, Glauber partiu para o exílio, de onde nunca retornou totalmente. Em 1977, viveu seu maior trauma: a morte da irmã, a atriz Anecy Rocha, que, aos 34 anos, caiu em um fosso de elevador. Antes, outra irmã dele morreu, aos 11 anos, de leucemia.

Glauber faleceu vítima de septicemia, ou como foi declarado no atestado de óbito, de choque bacteriano, provocado por broncopneumonia que o atacava há mais de um mês, na Clínica Bambina, no Rio de Janeiro, depois de ter sido transferido de um hospital de Lisboa, capital de Portugal, onde permaneceu 18 dias internado. Residia há meses em Sintra, cidade de veraneio portuguesa, e se preparava para fazer um filme, quando começou a passar mal.

O cineasta

Antes de estrear na realização de uma longa metragem (Barravento, 1962), Glauber Rocha realizou vários curtas-metragens, ao mesmo tempo que se dedicava ao cineclubismo e fundava uma produtora cinematográfica.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969) são três filmes paradigmáticos, nos quais uma crítica social feroz se alia a uma forma de filmar que pretendia cortar radicalmente com o estilo importado dos Estados Unidos da América. Essa pretensão era compartilhada pelos outros cineastas do Cinema Novo, corrente artística liderada inegavelmente por Rocha.

Glauber Rocha foi um cineasta controvertido e incompreendido no seu tempo, além de ter sido patrulhado tanto pela direita como pela esquerda brasileira. Ele tinha uma visão apocalíptica de um mundo em constante decadência e toda a sua obra denotava esse seu temor. Para o poeta Ferreira Gullar, "Glauber se consumiu em seu próprio fogo".

Com Barravento ele foi premiado no Festival Internacional de Cinema da Tchecoslováquia em 1963. Um ano depois, com 'Deus e o diabo na terra do sol, ele conquistou o Grande Prêmio no Festival de Cinema Livre da Itália e o Prêmio da Crítica no Festival Internacional de Cinema de Acapulco.

Foi com Terra em Transe que tornou-se reconhecido, conquistando o Prêmio da Crítica do Festival de Cannes, o Prêmio Luis Buñuel na Espanha e o Golfinho de Ouro de melhor filme do ano, no Rio de Janeiro. Outro filme premiado de Glauber foi O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, prêmio de melhor direção no Festival de Cannes e, outra vez, o Prêmio Luiz Buñuel na Espanha.
Citação: «Inventar-te-ia antes que os outros te transformem num mal-entendido.»

Filmografia

Longa-metragens

Ano Filme Prêmios e Indicações
1962 Barravento
1963 Deus e o Diabo na Terra do Sol Indicado: Festival de Cannes: Palma de Ouro
1967 Terra em Transe Vencedor Festival de Cannes: FIPRESCI
Indicado: Festival de Cannes: Palma de Ouro
1968 O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro Vencedor Festival de Cannes: Melhor Diretor
Indicado: Festival de Cannes: Palma de Ouro
1970 Cabeças Cortadas
1971 O Leão de Sete Cabeças
1972 Câncer
1975 Claro
1980 A Idade da Terra

Documentários e curta-metragens

* 1959 - O Pátio A
* 1966 - Maranhão 66 B
* 1974 - História do Brasil
* 1974 - As Armas e o Povo C
* 1976 - Di Glauber
* 1979 - Jorge Amado no cinema

A – Glauber estréia com um curtametragem hermético e experimental, vertentes que logo em seguida ele renegará em favor de um cinema político, mas que reaparecerão mais tarde em filmes como Câncer e A idade da terra.

B – Documentário que registra a posse de José Sarney como governador do Maranhão. Foi financiado pelo próprio evento que marcou o início da domínio político da família Sarney no Estado, interrompido em 1º de Janeiro de 2007 com a posse do Governador Jackson Lago de oposição à família. Em contraponto ao discurso de posse e da multidão em celebração, o filme mostra a miséria da população a ser governada. Algumas das imagens documentais da festa foram usadas na montagem de Terra em transe.

C – Filme coletivo.

  • Quem quiser saber mais sobre a vida e a obra deste ícone do cinema brasileiro acesso o site Tempo Glauber.
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Um comentário:

  1. Opa, mais um blog de cinema de alguém daqui da região.
    Vou adicioná-lo à lista.
    Sobre este filme do Gláuber Rocha, nunca vi. Aliás, não vi nenhuma obra deste diretor. Quando tiver oportunidade, verei algum dele, como Terra em Transe ou este mesmo.

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