terça-feira, 8 de julho de 2008

O pequeno soldado (Le Petit Soldat, França, 1963,88mins)
Minha nota: [7,9] -
Por Wendell Borges - 08/07/2008

Comentário: O diretor Jean Luc Godard foi um dos divulgadores da "Nouvelle Vague", um movimento francês que defendia um cinema de autor, onde o diretor realmente fosse o responsável pelo roteiro, direção de atores e pela filmagem, imprimindo realmente uma estética particular ao trabalho realizado.

Neste seu segundo longa-metragem, realizado no mesmo ano que seu outro filme de maior sucesso Acossado (1963) ele acompanha o dia-a-dia de um agente desertor chamado Bruno Forestier (Michael Subor) que agora está em Genebra na Suíça e recebe a missão de matar um radialista chamado Palivoda. Bruno conhece uma garota chamada Veronica Dreyer (Anna Karina) por quem se apaixona e confuso com relação a seus ideais o jovem discute suas preferências e dúvidas com Veronica, há uma cena em que ele se pergunta se os olhos de Veronica são cinza como Velasquez ou seria como Renoir? Discute com ela qual a melhor hora do dia para ouvir Beethoven, Joseph Haydn,Bach,Brandenburg e Mozart, segundo ele Beethoven é para ser ouvido à meia-noite por ser muito profundo, já Bach e Brandenburg são para ser ouvidos pela manhã e na cena então escolhe Haydn para ouvir junto com Veronica, durante esta cena ele tira várias fotos dela. Anos depois das filmagens, o diretor disse ao jornalista Richard Roud sobre este filme: "Queria mostrar uma mente confusa, numa situação confusa. Meu filme, em todo caso, era uma espécie de autocrítica".

O filme tem uma narrativa lenta e deve ser assistido com bastante atenção pois o diretor utiliza através da personagem uma série de citações de vários pintores, pensadores diversos para fazer o espectador refletir sobre a vida, as ideologias e a nossa situações de seres humanos. Um bom filme, reflexivo e intimista.

Abaixo eu coloquei uma pequena pesquisa que fiz para entender um pouco este conflito que os franceses viviam na época com relação à guerra da Argélia, hoje um país livre em que 99% da população é composta por adeptos da religião Islâmica. Pesquisas de opinião na França apontavam que 80% da população não sabia o que pensar do conflito argelino - ou, simplesmente, não queria pensar na situação. Ficou proibido na França por 3 anos, por mostrar cenas de tortura, praticada por ambos os lados, argelinos e franceses.

Essa é a descrição do filme, por Godard:
“(…) história de um agente secreto francês que recusa cumprir uma missão, mas acaba por realizá-la, após sua prisão e tortura pelos inimigos. Enfim, uma vez decifrada, esta história se torna para os distribuidores a história de um homem que pensa que seu rosto no espelho não corresponde à idéia que ele faz de si mesmo. Um homem que pensa que as mulheres não deveriam ultrapassar os vinte e cinco anos, um homem que ama a música do velho Joseph Haydn, que gostaria de ter força para limpar seu caminho com um punhal e que é confiante de ser francês, pois ama Joachim du Bellay e Louis Aragon, aliás um garotinho que eu chamei de Pequeno Soldado.”

PRIMEIROS MOMENTOS DO FILME:

A câmera de forma rápida e abrupta sai da escura imagem de uma casa no escuro e mostra a chegada de um carro de placa GE - 27985 onde um homem passa por um vigia. Ele diz estar velho para um papel ativo e diz ter que repensar as coisas. Em seguida já vemos o homem ganhando a estrada e passando pela ponte do lago Léman que divide a cidade em duas, o início da história se passa em 13 de maio de 1958. " Amem uns aos outros" O céu me lembrava uma pintura de Klee. Onde você está? para onde vai?

ALGUMAS FRASES DE PERSONAGENS DO FILME:

- Garotas gostam muito de papo furado (Bruno forestier)Não, só transo com quem me apaixono.
- Veronica, seus olhos são cinza como Velasquez ou seria como Renoir?
Thomas, O inspector de Jean Cocteau é o livro que Jacques está lendo quando Bruno pergunta.
- vou abrir uma galeria de arte, estava querendo levar Veronica para o Brasil (Bruno falando para seu amigo Jacques)
- Não quero matar Palivoda (Bruno)
- Liguei para o consulado brasileiro para pedir visTo para um francesa e uma russa
- Fotografia é a verdade e o cinema é a verdade 24 vezes por segundo (Bruno conversando com Veronica enquanto tira fotos dela)

- Bruno pergunta se não há discos na casa de Veronica, onde ambos se encontram. Ela sugere Bach, ao que Bruno responde: “Já está tarde, Bach é para as 8:00 da manhã. Um Brandenburg às 8:00 da manhã é magnífico”. Ela continua: “Mozart? Beethoven?”. E ele replica: “Muito cedo. Mozart é para as 8:00 da noite. Beethoven é muito profundo, é para a meia-noite. Precisamos de um pouco de Haydn, de um bom e velho Joseph Haydn.”. Veronica, então, obedece e começa a pular pela casa ao som da música. Achei interessante essa distinção de horários por autor. Será que isso funciona para todos? Pretendo experimentar.
- Gauguin foi melhor pintor que Van Gogh na opinião de Veronica. Bruno discorda.
"Entramos na guerra como entramos na Escola" Assim começa o livro de Bernanos "Crianças Humilhadas"
- A estética do futuro é a ética (Bruno recita dizendo que acha que esta frase é de Lenin)


Pequena Biografia de Jean-Luc Godard

Jean-Luc Godard nasceu em 3 de dezembro de 1930 em Paris. Passou a infância e juventude na Suíça e depois estudou etnologia na Sorbonne. A partir de 1952 colaborou na revista Cahiers du Cinéma e, depois de vários curtas-metragens, fez em 1959 seu primeiro filme longo, À bout de souffle (Acossado), em que adotou inovações narrativas e filmou com a câmara na mão, rompendo uma regra até então inviolável. Esse filme foi um dos primeiros da nouvelle vague, movimento que se propunha renovar a cinematografia francesa e revalorizava a direção, reabilitando o filme dito de autor.
Os filmes seguintes confirmaram Godard como um dos mais inventivos diretores da nouvelle vague: Vivre sa vie (1962; Viver a vida), Alphaville (1965), Pierrot le fou (1965; O demônio das 11 horas), Deux au trois choses que je sais d'elle (1966; Duas ou três coisas que eu sei dela), La Chinoise (1967; A chinesa) e Week-end (1968; Week-end à francesa). O cinema de Godard nessa fase caracteriza-se pela mobilidade da câmara, pelos demorados planos-seqüências, pela montagem descontínua, pela improvisação e pela tentativa de carregar cada imagem com valores e informações contraditórios.
Após o movimento estudantil de maio de 1968, Godard criou o grupo de cinema Dziga Vertov -- assim chamado em homenagem a um cineasta russo de vanguarda -- e voltou-se para o cinema político. Pravda (1969) trata da invasão soviética da Tchecoslováquia; Vento dell'este (1969; Vento do Oriente), com roteiro do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit, desmistifica o western e Jusqu'à la victoire (1970; Até a vitória) enfoca a guerrilha palestina. Mais uma vez, Godard procurou inovar a estética cinematográfica com Passion (1982), reflexão sobre a pintura. Os filmes seguintes, como Prénom: Carmen (1983) e Je vous salue Marie (1984), provocaram polêmica e o último deles, irreverente em relação aos valores cristãos, esteve proibido no Brasil e em outros países.

Jean-Luc Godard (frases)

"Sem o Cinema eu mesmo não teria uma história"

"Gosto de todos os filmes que fiz, mesmo dos ruins, porque gosto de mim"

"Se se faz um bom filme, deve-se a tudo renunciar, os filmes medíocres são aqueles que não renunciaram a quase nada"

"Meu lugar é marginal, porque considero que ficar à margem de alguma coisa é colocar-se no lugar do público, ter seus olhos, julgar com seus critérios"


Um pouco da história da Argélia e a FLN (Frente de Libertação Nacional)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
A guerra da Argélia (1954 — 1962) foi um movimento de luta pela independência da Argélia, então território francês. Caracterizou-se por ataques de guerrilha e atos de violência contra civis - perpetrados tanto pelo exército e colonos franceses (os "pied-noirs") quanto pela Frente de Libertação Nacional (Front de Libération Nationale - FLN) e outros grupos argelinos pró-independência. O governo francês do tempo considerava criminoso ou terrorista todo ato de violência cometido por argelinos contra franceses, inclusive militares. No entanto, alguns franceses, como o antigo guerrilheiro anti-nazi e advogado Jacques Vergès, compararam a Resistência francesa à ocupação nazi com a resistência argelina à ocupação francesa.
A luta foi lançada pela FLN em 1954, apenas dois anos antes de a França ser obrigada a desistir do seu controle sobre a Tunísia e Marrocos.

O principal rival argelino da FLN — com o mesmo objectivo de independência para a Argélia — era o Movimento Nacional Argelino (Mouvement National Algérien - MNA), criado mais tarde, cujos apoiadores principais eram trabalhadores argelinos em França. A FLN e o MNA lutaram entre si durante quase toda a duração do conflito.

Início das Hostilidades
Na madrugada de 1º. de Novembro de 1954, militantes da FLN lançaram ataques em vários locais da Argélia, contra instalações militares, postos de polícia, armazéns, infra-estrutura de comunicações e serviços de utilidade pública.

Um artigo sobre a Nouvelle Vague (fonte: clique aqui)

Ficha Técnica: Le Petit Soldat, França, 1963,88 mins. Direção e roteiro: Jean Luc Godard.
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