quarta-feira, 16 de julho de 2008

Persona (Suécia,1966,85 mins)
Minha nota: [10,0] -
Por Wendell Borges - 16/07/2008

Comentário: Ingmar Bergman (1914-2007) é aquele tipo de diretor indispensável em qualquer lista que incluem não só os melhores diretores da história do cinema, mas também os melhores filmes. Os trabalhos de Bergman são em sua grande maioria reflexivos, intimistas e funcionam como experiência de linguagem do cinema. O início deste Persona me lembrou alguns momentos do Fight Club de David Fincher, pois o diretor colocou a imagem de um pênis em milésimos de segundos, imagem quase imperceptível de efeito subliminar, quando entre outras imagens nos mostra um pouco do processo de projeção de um filme com um velho cartão queimando, o fotograma, o desenho animado, o filme antigo e mudo, a morte da ovelha e uma mão pregada na cruz como Cristo, algo extremamente original para a época. Isto é quase como se nos sussurrasse no ouvido dizendo: Ei, espectador, isto aqui é cinema. Na sequência temos a imagem de um menino magro (Jorgen Lindstrom), ator que não aparece nos créditos, ele acorda e coloca o óculos para ler um livro, depois vê a câmera, que se torna o rosto de uma mulher, acreditei que talvez fosse uma alusão ao filho da atriz Elisabeth Vogler (Liv Ullman). O filme então inicia com a enfermeira Alma (Bibi Anderson) entrando no quarto para dar assistência à atriz que está sofrendo de síndrome do pânico ou algum problema de caráter mental, Elisabeth Vogler estava no palco quando passou mal, de repente recusou-se a falar e é justamente o seu relacionamento com a enfermeira Alma que permeará todo o resto da trama, num angustiante jogo psicológico filmado na ilha onde o diretor Ingmar Bergman residia na época. O trailer original que está nos extras deste lançamento descreve bem o que é o termo " persona", ele resume um pouco o que é a experiência reflexiva de assistir a este filme: "Persona" "é o reconhecimento da nossa terrível solidão, nossa singularidade, nossa inabilidade de se comunicar com os outros. É uma confissão de nossos medos, do homem,do fracasso, da morte. É o drama do desespero, o silencio, o terror indescritível da vida em todos os aspectos. É um drama da sensibilidade da pele, de rostos e palavras não entendidas. Persona é uma ilusão estiçalhada,uma vitória sobre o silencio". E a palavra "nada" assim como sussurra em alguns momentos a personagem da atriz Liv Ullmann (hoje tem 70 anos e realizou 10 filmes ao lado de Bergman, seu ex-marido). Já Bibi Anderson fará 73 anos em Novembro deste ano e continua trabalhando como atriz. Persona é um filme obrigatório!

Obs 1: O termo Persona é o nome da máscara teatral greco-romana e, por extensão, também as máscaras que usamos na vida profissional ou pessoal.

Obs 2: A bela fotografia de Sven Nykvist (1922-2006) também é digna de elogios, eu destaco a imagem na qual Alma sai de maiô e limpa o que parecem ser cacos de vidro no chão, as árvores em primeiro plano, as sombras e a atriz ao fundo, cena belíssima. Aqui eu coloco um link com uma mini-biografia escrita em inglês no site IMDB.

Anotações que fiz para quem já viu persona:

1 - A cena em que Alma discute com Vogler e ameaça jogar água quente nela, o que a faz finalmente sair de seu silêncio é um grande momento do filme.

2 - A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Ser e parecer. (reflexões da Doutora interpretada por Margaretha Krook).

Citações:
As citações foram extraídas do livro "Imagens", de Ingmar Bergman, trad. de Alexandre Pastor, Ed. Martins Fontes, 1996.

"Que o cinema seja o meio por que me expresso, é absolutamente natural. Fiz-me compreender numa língua que passava ao lado da palavra de que carecia, da música que não sabia tocar, da pintura que me deixava indiferente. Subitamente tive a possibilidade de me corresponder com o mundo numa linguagem que literalmente fala da alma para a alma, em termos que, quase de maneira voluptuosa, escapam ao controle do intelecto." (pag. 49)

"O fotógrafo Sven Nykvist e eu, originariamente, tínhamos pensado numa iluminação convencional para ambas as atrizes, Liv Ullmann e Bibi Andersson, mas não deu bom resultado. Concordamos então em pôr uma metade do rosto numa escuridão total, não havendo sequer uma luz de compensação. Depois, na parte final do monólogo, foi um passo natural combinar as duas metades iluminadas dos rostos, fazendo com que se integrassem numa só face. A maior parte das pessoas tem uma metade do rosto mais fotogênica que a outra. As fotografias meio iluminadas dos rostos de Liv e de Bibi que ligamos uma à outra mostram as suas metades feias. Quando recebi do laboratório o filme com esta duplicação, pedi a Liv e a Bibi que viessem ao estúdio de montagem. Surpresa, Bibi exclamou: 'Como você está esquisita, Liv!'. E Liv por sua vez disse: 'Mas essa cara é a sua, Bibi. É você que tem um ar esquisito!' Quer dizer, ambas negaram espontaneamente as metades menos bonitas de seus rostos." (pag. 61)

"Quando lemos o texto de Persona, talvez dê a impressão de ser uma improvisação. Mas não. Esse texto foi rigorosamente concebido. Apesar disso, nunca repeti tantas cenas em minha vida como nesse filme. E quando digo que repeti cenas, não quero dizer filmagens de uma e mesma cena, no mesmo dia, mas sim de novas filmagens por não ter ficado satisfeito com as seqüências reveladas de cada dia." (pag. 64)

Sinopse: Uma enfermeira é encarregada de cuidar de uma atriz que, apesar de física e psicologicamente sã, se recusa a falar. Como o tratamento dentro do hospital não parece ser o mais eficiente no caso, as duas vão morar numa casa de verão, onde se aproximam e se mostram, às suas maneiras.

Ficha Técnica: Persona, Suécia,1966 Direção: Ingmar Bergman.
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