quarta-feira, 2 de julho de 2008

Um cão andaluz (Un chien andalou,França,1929,16 mins)
Minha nota: [9,0] -

Por Wendell Borges - 02/07/2008

Comentário: Antes de tecer este comentário eu li o roteiro do filme o qual exponho abaixo, retirei-o deste site: clique aqui.

Um cão Andaluz é um marco da estética surrealista no cinema com um diretor que acreditava que o cinema poderia agir no inconsciente das pessoas e mexer com suas idéias aumentando-lhes a criticidade perante o mundo. Eu acredito no cinema, nas suas infinitas possibilidades como arte de trazer contribuições para que a humanidade possa melhorar, se é um sonho ou algo ingênuo, não sei, mas é uma crença. O que senti ao assistir Um cão andaluz? várias foram as reflexões:

1 - Entrei logicamente no campo da moral pois sabendo tratar-se de um filme do final dos anos 20 e ver as cenas do personagem que aperta os seios e as nádegas de uma mulher já é algo bem polêmico e anti-moralista por si só.

2 - Repulsa ao ver as formigas saindo de um buraco na mão de um homem, pensei na morte naquele momento, pensei em coisas ruins.

3 - A cena da menina atropelada me fez pensar no destino, no acaso, e no fato de ao ver aquela cena tenha despertado no homem o desejo pela mulher nas cenas seguintes abriu um leque de outras reflexões. Será o acaso o que faz com que a humanidade seja o que é hoje? As misturas, as diversas línguas e o que ainda resta de cultura no mundo?
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ROTEIRO DE UM CÃO ANDALUZ. (retirado deste site)

Na edição da revista La Révolution Surréaliste de nº12 de 15 de dezembro de 1929, foi publicado o presente argumento de Um cão andaluz. Na introdução, Luís Buñuel explica: "A publicação deste argumento em La Révolution Surréaliste é a única que eu autorizo. Ela exprime, sem qualquer reserva, minha completa adesão ao pensamento e à atividade surrealistas. Um cão andaluz não existiria se o surrealismo não existisse. Um filme de sucesso, é isso o que pensa a maioria das pessoas que o viram. Mas, que posso fazer contra os cultores de toda novidade, mesmo se essa novidade ultraja suas convicções mais profundas, contra uma imprensa vendida ou insincera, contra essa massa imbecil que achou belo ou poético o que, no fundo, não passa de um desesperado, apaixonado apelo ao homicídio?"

Prólogo

Era uma vez...
Um balcão de noite. Um homem afia sua navalha junto do balcão. O homem olha o céu através dos vidros e vê...
Uma nuvem clara avançando para a lua cheia.
Depois, uma cabeça de moça, de olhos arregalados. A lâmina da navalha dirige-se para um dos olhos dela.
Agora a nuvem passa pela lua.
A lâmina da navalha atravessa o olho da moça, seccionando-o.

Fim do prólogo

Oito anos depois.
Uma rua deserta. Chove.
Uma personagem, vestida com uma roupa cinza escura, aparece de bicicleta.
Tem a cabeça, as costas e a cintura envoltas em panos brancos.
Em seu peito está presa, por correias, uma caixa retangular, listrada em diagonal de preto e branco. A personagem pedala maquinalmente, o guidão livre, as mãos pousadas nos joelhos.
A personagem vista de costas até as ancas em P.A., superimpressão no sentido longitudinal da rua na qual ele circula de costas para a câmara.
A personagem avança até à câmara até que a caixa listrada esteja em primeiro plano.
Um quarto qualquer num terceiro andar dessa rua. No meio está sentada uma moça vestida com uma roupa de cores vivas, que lê atentamente um livro. De repente estremece, escuta com curiosidade e afasta o livro atirando-o sobre um divã próximo. O livro cai aberto. Numa das páginas, vê-se uma reprodução de A Rendeira, de Vermeer. A moça está agora convencida de que alguma coisa está acontecendo: levanta-se, dá meia-volta e vai à janela com passo rápido.
A personagem de há pouco acaba de parar, em baixo, na rua. Sem opor a menor resistência, por inércia, cai na sarjeta com a bicicleta, no meio de um monte de lama.
Gesto de cólera, de rancor, da moça que se precipita para as escadas para ir à rua.
Primeiro plano da personagem caída no chão, sem nenhuma expressão, na posição idêntica à do momento da queda.
A moça sai de casa, correndo para o ciclista e o beija freneticamente na boca, nos olhos, no nariz.
A chuva aumenta a ponto de fazer desaparecer a cena precedente.
Fusão com caixa, cujas listras oblíquas superpõem-se às da chuva. Mãos contendo uma pequena chave abrem a caixa, da qual retiram uma gravata embrulhada em papel de seda. É preciso considerar que a chuva, a caixa, o papel de seda e a gravata devem ter listras oblíquas, apenas variando o tamanho delas.
O mesmo quarto.
Em pé junto à cama está a moça que contempla os acessórios usados pela personagem - panos, caixa e colarinho duro com gravata fosca e lisa -, tudo disposto com se esses objetos estivessem sendo usados por uma pessoa deitada na cama. A moça finalmente decide-se a pegar o colarinho, do qual retira a gravata lisa para substituí-la pela listrada, que ela tirou da caixa. Coloca-a no mesmo lugar e depois senta-se junto à cama, na atitude de uma pessoa que vela um morto. (Nota: a cama, isto é, a colcha e o travesseiro, estão levemente amarrotados e afundados como se realmente um corpo humano ali estivesse.)
A mulher tem a sensação de que alguém está por trás dela e volta-se para ver quem é. Sem o menor espanto, vê a personagem, desta vez sem nenhum acessório, que olha com grande atenção qualquer coisa em sua mão direita. Há muita angústia nessa grande atenção.
A mulher aproxima-se e olha por sua vez o que ele tem na mão.
Grande Plano da mão, no centro da qual agitam-se formigas que saem de um buraco escuro. Nenhuma delas cai.
Fusão com pêlos axilares de uma moça deitada na areia ensolarada de uma praia. Fusão com um ouriço do mar, cujos espinhos móveis oscilam levemente. Fusão com a cabeça de uma outra moça, tomada em plongé muito violento e cercado pela íris. A íris abre-se e mostra que essa moça está no meio de um grupo de pessoas que procura forçar o círculo feito por policiais.
No centro do círculo, a moça tenta apanhar, com uma bengala, uma mão cortada, de unhas pintadas, que está no chão. Um dos polícias aproxima-se dela e a repreende severamente, abaixa-se e apanha a mão, que embrulha cuidadosamente e põe na caixa do ciclista. Entrega tudo à moça, cumprimentando-a militarmente enquanto ela agradece.
É preciso notar que, no momento em que o polícia lhe dá a caixa, ela está invadida por uma emoção extraordinária, que a isola completamente de tudo. Ela está como que subjugada pelos ecos de uma longínqua música religiosa: talvez uma música ouvida em sua mais tenra infância.
O público, satisfeita a curiosidade, começa a se dispersar em todas direções.
Essa cena é vista pelas personagens que deixamos no quarto do terceiro andar. Vêmo-las através dos vidros do balcão, de onde se pode ver o fim da cena acima descrita. Quando o agente entrega a caixa à moça, as duas personagens do balcão parecem, também elas, invadidas pela mesma emoção, emoção que chega até às lágrimas. Suas cabeças balançam como se seguissem o ritmo daquela música impalpável.
A personagem olha a moça e faz-lhe um gesto que parece significar: "Viste? Não te disse?".
Ela olha novamente na rua a moça que agora está só, como que pregada no chão, em estado de inibição absoluta. Passam autos em velocidades vertiginosas. De repente, um deles passa por cima dela, mutilando-a terrivelmente.
Então, com a decisão de um homem em plena posse de suas faculdades, a personagem aproxima-se da moça e, depois de tê-la olhado lascivamente dentro dos olhos, apalpa-lhe os seios através da roupa. Grande Plano das mãos lascivas sobre os seios. Estes emergem da roupa. Vê-se então uma terrível expressão de angústia, quase mortal, refletir-se nas feições da personagem. Uma baba sanguinolenta escorre-lhe da boca sobre o peito nu da moça.
Os seios desaparecem para se transformar em nádegas que continuam a ser apalpadas pela personagem. A expressão deste muda. Seus olhos brilham de maldade e de luxúria. Sua boca, escancarada, fecha-se, minúscula, em forma de esfíncter.
A moça recua para dentro do quarto, seguida pela personagem sempre na mesma atitude.
Subitamente, ela faz um gesto enérgico para separar os braços dele, libertando-se assim do contato audacioso.
A boca da personagem contrai-se de ódio.
Ela compreende que uma cena desagradável ou violenta vai acontecer. Ela recua, passo a passo, até um canto onde entrincheira-se por trás de uma mesinha.
Gesto de vilão de melodrama da personagem. Olha para todos os lados, procurando alguma coisa. A seus pés, ela vê a ponta de uma corda e a apanha com a mão direita. Tateia com a mão esquerda e apanha uma corda idêntica.
A moça, colada à parede, olha, apavorada, a manobra de seu agressor.
Este avança para ela, arrastando com grande esforço o que está amarrado nas cordas.
Vê-se passar, primeiro, uma cortiça, depois uma cabaça, dois irmãos de colégios cristãos e finalmente, dois magníficos pianos de cauda. Os pianos estão cobertos por carcaças de burros cujas patas, caudas, ancas e excrementos transbordam da caixa harmônica. Quando um dos pianos passa diante da objetiva, vê-se um enorme cabeça de burro apoiada no teclado.
A personagem, puxando com grande esforço essa carga, está desesperadamente inclinada para a moça. Ela derruba cadeiras, mesas, uma lâmpada de pé etc. As ancas dos burros embaraçam-se em tudo. A lâmpada do teto, sacudida de passagem por um osso descarnado, ficará balançando até o fim da cena.
Quando a personagem está a ponto de atingir a moça, esta esquiva-se com um pulo e foge. Seu agressor, largando as cordas, sai em sua perseguição. A moça abre a porta de comunicação, por onde desaparece no quarto contíguo, mas não suficientemente rápida para fechar completamente a porta. A mão da personagem, tendo conseguido interpor-se, fica presa pelo punho.
No interior do quarto, fechando cada vez mais a porta, a moça olha a mão que se contrai dolorosa e lentamente, e as formigas, que reaparecem, espalham-se pela porta. Imediatamente, ela vira a cabeça para dentro do novo quarto, que é idêntico ao precedente, mas ao qual a iluminação dará um aspecto diferente : a moça vê...
A mesma cama, na qual está estendida a personagem, cuja mão continua presa na porta, vestida com os panos e a caixa sobre o peito, sem fazer o menor gesto, os olhos arregalados e com uma expressão supersticiosa que parece significar: "Neste momento vai acontecer uma coisa extraordinária!".

Pelas três horas da manhã

No patamar da porta de entrada do apartamento, uma nova personagem, vista de costas, acaba de parar. Aperta a campainha da porta do apartamento onde essas coisas estão acontecendo. Não se vê nem a campânula nem o martelo elétrico da campainha mas, em seu lugar, por dois buracos praticados na folha da porta, vê-se passar duas mãos que sacodem um shaker de prata. Sua ação é instantânea, como nos filmes comuns, quando se aperta a campainha.
A personagem deitada estremece.
A moça vai abrir a porta.
O recém-chegado vai diretamente até a cama e ordena imperativamente à personagem que se levante. Ela obedece de tal maneira recalcitrante que o outro vê-se obrigado a pegá-la pelos panos, forçando-a a levantar-se.
Após ter-lhe tirado os panos um a um, joga-os pela janela. A caixa segue o mesmo caminho, bem como as correias que o outro procura, em vão, salvar da catástrofe. E este gesto leva o recém-chegado a punir a personagem, obrigando-a a ficar de castigo contra a parede.
O recém-chegado faz todos esses movimentos de costas.
Então volta-se pela primeira vez para apanhar alguma coisa do outro lado do quarto.
Nesse instante, a fotografia torna-se esfumada. O recém chegado move-se em câmara lenta e vê-se suas feições, idênticas às do outro; não são mais que um; só que este tem um ar mais moço e mais patético, como o outro deveria ter sido há alguns anos.
O recém-chegado vai até o fundo do quarto, precedido pela câmara, que o acompanha em Plano Aproximado.
Uma carteira escolar, para a qual se dirige nosso indíviduo, entra em campo. Dois livros, na carteira, bem como vários outros objetos escolares: suas posições e sentido moral se determinarão cuidadosamente.
Ele apanha os dois livros e volta-se para juntar-se à personagem. Nesse instante, tudo volta ao estado normal, cessando o esfumado e a câmara lenta.
Chegando perto dele, ordena-lhe que abra os braços em cruz e põe-lhe um livro em cada mão, mandando-o ficar assim de castigo.
O castigado tem um ar finório e cheio de traição. Volta-se para o recém-chegado. Os livros, que continuam em suas mãos, transformam-se em revólveres.
O recém-chegado olha-o com ternura, sentimento que aumentará.
A personagem dos panos, ameaçando o outro com as armas, força-o ao "mãos ao alto!" e, apesar de ter sido obedecido, descarrega sobre ele os dois revólveres.
Em Plano Aproximado, o recém-chegado cai mortalmente ferido, as feições se contraindo dolorosamente (o esfumado volta e a queda para a frente é numa lentidão mais pronunciada que a anterior).
De longe, vê-se o ferido cair, não mais no quarto mas num parque. A seu lado está sentada, imóvel e vista de costas, uma mulher de espáduas nuas, ligeiramenre inclinada para a frente.
Caindo, o ferido tenta agarrá-la e acariciar suas costas; uma de suas mãos, trêmula, vira-se para ele próprio; a outra, roça a pele das espáduas nuas. Finalmente cai no chão.
Tomada de longe. Alguns transeuntes e guardas correm para socorrer o recém-chegado. Levantam-no nos braços e o carregam através do bosque.
Fazer intervir o capenga apaixonado.
Volta-se ao mesmo quarto. Uma porta, aquela em que a mão esteve presa, abre-se lentamente. Aparece a moça que já conhecemos. Fecha a porta atrás dela e olha atentamente a parede contra a qual esteve o assassino.
O homem não está mais lá. A parede está lisa, sem nenhum móvel ou enfeite.
A moça faz um gesto de impaciência e de despeito.
Vê-se outra vez a parede, no meio da qual há uma pequena mancha preta.
Essa manchinha, vista mais de perto, é uma mariposa. A mariposa em Grande Plano.
A caveira das asas da mariposa cobre toda a tela.
Em Plano Aproximado, aparece bruscamente o homem dos panos, que leva a mão rapidamente à boca, como alguém que perde os dentes. A moça olha-o desdenhosamente.
Quando a personagem retira a mão, vê-se que a boca desapareceu. A moça parece dizer: "Bom. E agora?" e acentua a pintura dos lábios.
Vê-se o rosto da personagem. No lugar da boca, começam a nascer pêlos.
A moça, reparando naquilo, abafa um grito e olha vivamente sua axila, que está completamente depilada. Desdenhosa, mostra-lhe a língua, põe um xale nos ombros e, abrindo a porta de comunicação a seu lado, passa para o quarto contíguo, que é uma grande praia.
Junto da água, uma terceira personagem espera. Cumprimentam-se amavelmente e passeiam acompanhando a curva das ondas.
Plano das pernas e das ondas que morrem a seus pés.
A câmara acompanha-os de carrinho. As ondas atiram suavemente a seus pés primeiro as correias, depois a caixa listrada, os panos e finalmente a bicicleta. Esta tomada continua ainda um instante sem que o mar atire mais nada.
Continuam o passeio na praia, desaparecendo pouco a pouco enquanto no céu aparecem estas palavras:

Na Primavera

Tudo está mudado. Agora, vê-se um deserto sem fim. Plantados no centro, enterrados na areia até o peito, vê-se a personagem principal e a moça, cegos, as roupas esfarrapadas, devorados pelos raios de sol e por uma nuvem de insetos.

Ficha Técnica: Un chien andalou,França,1929 - Direção: Luis Buñuel.

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2 comentários:

  1. Oi Wendell, td bem?
    OBG p sua visita e seu comentário. É isso aí!!!! Nunca desista, persiga teu caminho a qq custo. Por sorte hoje a web ajuda muito disponibilizando filmes e livros p baixar, o que reduz distâncias. Gde abço e gostei muito deste posto sobre Bunuel.
    Fabio

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  2. muito legal teu comentário.adoro filmes surrealistas e esse nao pode faltar em minha lista.
    muitas pessoas tentam achar uma lógica em um cao andaluz(há teorias como:o filme retrata a mente conturbada de um assassino,entre outras)porém o próprio bunuel nas raras vezes que comentou sobre o filme disse que nao tinha uma lógica,nao era coerente.Na primeira cena quando uma narvalha corta o olho da moça,isso já era um aviso pra ver o filme com um olhar diferente.
    o surrealismo nao é pra entender é pra sentir.

    obs:vi numa entrevista que o David Lynch disse que aquela cena do veludo azul(a da orelha com formigas)foi inspirado numa cena de um clássico....advinhem???

    EDUARDO>

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