domingo, 14 de setembro de 2008

A Culpa é do Fidel (La Faute à Fidel!, França,Itália,2006,99mins)
Minha nota: [10,0] -
Por Wendell Borges - 14/09/2008

Comentário (não leia se não tiver visto o filme ainda): Uma pequena-obra prima de Julie Gravas, a filha do também diretor, o franco-grego Costantin Costa-Gravas, famoso por seus filmes clássicos que abordam questões políticas como "Z" e "Missing-Desaparecido", só para citar alguns.

O brilhante roteiro de Julie, com colaboração de Arnaud Cathrine, baseado no livro italiano Tutta Colpa di Fidel, de Domitilla Calamai e a atuação magnífica da jovem atriz Nina Kervel-Bey fazem desta produção Franco-italiana um dos melhores filmes lançados nos cinemas no ano de 2006.

Acompanhamos a vida turbulenta de Anna de La Mesa (Nina), uma garota de 9 anos cujos pais vivem conflitos político-ideológicos e acabam perpassando os problemas adultos para o ainda confuso mundo infantil da pequena Anna. Juntamente com o irmão François (Benjamin Feuillet) Nina vai refletindo e provocando os adultos que tentam convencê-la a acreditar em suas ideologias religiosas e políticas.

Ela lembra em muitos momentos a personagem Mafalda dos quadrinhos, criada pelo cartunista argentino Quino (atualmente com 76 anos). Inclusive o tio falecido de Anna chama-se Quino. O filme tem grandes momentos, principalmente durante as conversas de Nina com suas três babás, a exilada cubana Filomena (Marie-Noëlle Bordeaux ), a grega Panayota (Christiana Markou) e a vietnamita Mai-Lah (Thi Thy Tien N'Guyen) e um destaque também para as conversas dela com os avós (a cena da raposa). É durante estas conversas que Anna vai construindo seu entendimento e usando os argumentos ditos pelos adultos para contra-argumentar as idéias que lhes são impostas pelos pais e os adultos de seu círculo social.

A mãe de Anna, interpretada pela filha de Gerard Depardieu, Julie Depardieu, escrevia artigos para a revista burguesa Marie-Claire enquanto o pai, vivido por Stefano Accorsi, é um advogado espanhol que vive na França desde jovem. Após a morte do cunhado e com a efervescência política da época (o filme se passa entre 1970 e 1973) levam-nos a rever seus princípios. Ele deixa o emprego, troca a casa por um pequeno apartamento e passa a atuar como intermediário do movimento para eleger Allende presidente do Chile. Em certo momento da trama vemos na TV o anúncio do assassinato de Salvador Allende (1908-1973).

O excelente final com Anna brincando na roda de crianças com a câmera filmando de cima para baixo e a bela trilha sonora ao fundo fecham com chave de ouro esta pequena pérola do cinema. (ali está o verdadeiro comunismo, entre aquele grupo de crianças brincando, o resto é hipocrisia de adulto).

Obs: A filha de Gerard Depardieu, Julie Depardieu (35 anos) interpreta a mãe de Anna chamada Marie de La Mesa.

Obs 2 : Entrevista com Julie Gravas sobre o filme e sua carreira (em inglês)

Obs 3 : A canção "Venceremos, venceremos, La miseria sabremos vencer" que ficou conhecida pela voz de Vitor Jara , compositor, músico ator e diretor de teatro chileno é cantada durante o filme em comemoração à eleição de Salvador Allende. Em certo momento da trama Anna (nina) canta um trecho da música Ay! Carmela, música cantada por revolucionários durante a Guerra Civil Espanhola (1820-1823).

Anotações para quem já viu o filme (Wendell Borges - notes)

Diálogos iniciais
- por que ela não está fazendo nada?
- ela não fala francês. Seu nome é Pilar. Ela é espanhola.

1 - Anna fala para mãe que tirou 9/10 na redação e que leu o gênesis, a sua parte preferida da Bíblia. Nesta cena ela estava tomando banho na banheira com o irmão François
2 - Escrevi sobre o casamento de Isabelle e Mathieu. Mas eu não escrevi sobre o tio Quino, não sabia o que dizer.
- Você fez bem, algumas coisas não devem ser faladas.
- o quê?
- As histórias de ter comunistas na família.
- o quê?
- comunistas! Os barbudos! Eu tive que deixar Cuba por causa dos comunistas de Fidel. Eles pegaram tudo! Minha casa, minha terra, tudo!Malditos! Malditos sejam! Eles também causaram a guerra nuclear!
3 - Eu disse para você não ler mais isso! Mickey Mouse é um fascista!
4 - Mais um dos diálogos primorosos do filme, Anna conversando com seu avó sobre as mitologias gregas e romanas, no final da cena ele mostra a ela a raposa que roeu a própria pata para escapar da armadilha.
(trecho do diálogo entre Anna e o avô)
- A Bíblia diz que Deus fez tudo em 6 dias. Mas Gaia e Urano estavam aqui antes disso.
- No tempo antigo as pessoas acreditavam em todo tipo de bobagens. Eram só histórias para as pessoas ignorantes.
5 - Mai Lah, a vitnamita é a terceira babá de Anna. A grega Panayota voltou para Grécia pois seu marido havia saído da prisão.
6 - Anna canta Ay Carmela de José Sanches Sinistera após seus pais começarem uma discussão.
7 - Anna folheia o livro "O Direito de viver diferente" enquanto na TV passa a notícia do assassinato de Salvador Allende em 11 de setembro.
8 - O brilhante final com Nina brincando na roda de crianças com a câmera filmando de cima para baixo e a bela trilha sonora ao fundo fecham com chave de ouro esta pequena pérola do cinema. (ali está o verdadeiro comunismo, entre aquele grupo de crianças)

Sinopse: Anna de la Mesa (Nina Kervel-Bey) tem 9 anos, mora em Paris e leva uma vida regrada e tranqüila, dividida entre a escola católica e o entorno familiar. O ano é 1970 e a prisão e morte do seu tio espanhol, um comunista convicto, balança a família. Ao voltar de uma viagem ao Chile, logo após a eleição de Salvador Allende, os pais de Anna estão diferentes e a vida familiar muda por completo: engajamento político, mudança para um apartamento menor, trocas constantes de babás, visitas inesperadas de amigos estranhos e barbudos. Assustada com essa nova realidade, Anna resiste à sua maneira. Aos poucos, porém, realiza uma nova compreensão do mundo.

Elenco: Nina Kervel-Bey (Anna de la Mesa) - Julie Depardieu (Marie de la Mesa) - Stefano Accorsi (Fernando de la Mesa) - Benjamin Feuillet (François de la Mesa) - Martine Chevallier (Bonne Maman) - Olivier Perrier (Bon Papa) - Marie Kremer (Isabelle) - Raphaël Personnaz (Mathieu) - Mar Sodupe (Marga) - Gabrielle Vallières (Cécile) - Raphaëlle Molinier (Pilar) - Carole Franck (Soeur Geneviève) - Marie Llano (Anne-Marie) - Marie-Noëlle Bordeaux (Filomena)

Ficha Técnica: Título Original: La Faute à Fidel - Gênero: Drama - Tempo de Duração: 99 minutos - Ano de Lançamento (França / Itália): 2006 - Site Oficial: www.lafauteafidel-lefilm.com - Estúdio: B Movies / Société des Etablissements L. Gaumont / Canal+ / France 3 Cinéma / Ciné Cinémas / Région Ile-de-France / Les Films du Worso / Sofica Sogécinéma 4
Distribuição: Filmes do Estação - Direção: Julie Gavras -Roteiro: Julie Gavras, com colaboração de Arnaud Cathrine, baseado em livro de Domitilla Calamai -Produção: Sylvie Danton - Música: Armand Amar - Fotografia: Nathalie Durand - Desenho de Produção: Laurent Deroo - Figurino: Annie Thiellement -Edição: Pauline Dairou.
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Um comentário:

  1. Anônimo7:29 PM

    Filme muito bonito e inteligente. Um dos melhores que já assisti.

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