domingo, 21 de setembro de 2008

O Ano passado em Marienbad (L'Année Dernière à Marienbad, França / Itália,1961, 94 mins)
Minha nota: [10,0] -
Por Wendell Borges - 21/09/2008

Comentário: “Duas pessoas se conhecem, mas já se conheciam e não se conhecem ainda” (Deleuze).

Com este pensamento do filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) , eu inicio o comentário de uma das maiores obras-primas que o cinema já produziu em termos de construção fílmica para discussão sobre o "Tempo","Memória" e "fluxo de consciência". Ao terminar de ver o filme imediatamente eu tive que revê-lo, pois deixei-me envolver pelo transe quase hipnótico dos cenários e da trilha sonora e os fragmentos visuais me deixaram um tanto entorpecido. O filme logicamente por sua narrativa lenta e seu jogo simbólico não deve ser assistido por espectadores que estejam com sono ou impacientes por qualquer motivo.

O filme exige paciência e deve ser visto com outras perspectivas que não sejam a busca pelo ópio do entretenimento de mercado. E atenção, não é pelo fato de também apreciar filmes como este que eu não veja e não sinta prazer com filmes mais comerciais e apelativos. Tenho consciência dos prazeres que os filmes industriais podem proporcionar, desde é claro que tenham um mínimo de bom gosto. Há filmes escatológicos e que exageram no besteirol e mesmo assim são bons filmes, exemplos: Debi e Loide (o primeiro com Jim Carrey) e Bad Taste: Náusea total (de Peter Jackson).

Enquanto assistia ao filme, Lembro ter congelado algumas imagens, incluindo uma que eu já aguardava de antemão (a imagem do jardim abaixo) por já tê-la visto em diversos livros e sites cujas leituras fiz para poder ver o filme de Resnais com outros olhos. Ele foi elaborado para fazer o espectador sentir e refletir sobre o tempo, sobre as próprias lembranças e logicamente não há como discutir a obra sem recorrer às essas reflexões.

A composição plástica dos enquadramentos de O Ano passado em Marienbad (Estética Formalista) correspondem à atmosfera onírica do filme. As lembraças de X, sua obsessão pela mulher a quem ele diz ter estado no ano passado em Marienbad, desejos reprimidos, são algumas das maneiras as quais podemos tentar fazer uma construção ordenada dentro do caos narrativo.

Observe como o cenário é geometricamente trabalhado tendo as sombras realçadas em seu alinhamento para compor este visual belíssimo e que remete ao fluxo de consciência das personagens.

O que sempre penso ao ver filmes que são tidos como entediantes, chatos e herméticos é que em sua grande maioria são filmes que entorpecem, que nos fazem sentir estranhamento, que mexem com os sentidos, com a lógica natural dos acontecimentos em nossas mentes.

Infelizmente estamos acostumados a ver somente filmes que explicam e mostram tudo, não deixando nenhum espaço para o espectador imaginar ou pensar sobre a coisa vista. Esta padronização estética emburrecedora nos alimenta com uma única visão das pessoas e das coisas que compõem o mundo que vivemos. Como dizia Clarice Lispector, “não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas o que é passível de fazer sentido. Eu não: quero a verdade inventada. E o que te direi? Te direi os instantes.” O ano passado em Marienbad congela os instantes, quase como se dissesse, "ei! pare um pouco, observe o movimento, atente-se para os instantes". Os instantes que são vividos e revisitados pela memória, às vezes traiçoeira. Presentes e passados transformados em cenas que são por si só obras de arte completas. Estes instantes que se eternizaram nos corredores e jardins daquele suntuoso hotel. Infelizmente os filmes que criam espaços de espírito e tentam trazer o espectador para a dimensão investigativa da arte são cada vez mais raros.







ESPELHOS: SÍMBOLOS DA CONSCIÊNCIA?

"E nós todos que, com a face descoberta, refletimos como em um espelho a glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente, pela ação do Senhor, que é o Espírito. (...) Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas, depois, veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas, depois, conhecerei como sou conhecido." Coríntios l3, l2 e 2 Coríntios 3, l8

Entre os tibetanos, o espelho é símbolo da transcendência temporal, da a-historicidade, da superação da continuidade da percepção sensorial pelos lampejos da eternidade . O símbolo do espelho é essa instantaneidade permanente e reflexiva da linguagem. Por isso, ele é um convite à eternidade, como, aliás, sugerem as muitas lendas que o associam à longevidade e à manutenção da beleza por meios sobrenaturais.

Sinopse: Num luxuoso e enorme hotel, um estranho quer convencer uma mulher casada para fugirem juntos. Entretanto parece difícil ela se lembrar que tiveram um caso (ou não tiveram) no último ano em Marienbad.

Premiações
- Recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original.
- Recebeu uma indicação ao BAFTA de Melhor Filme.
- Ganhou o Leão de Ouro, no Festival de Veneza.

Elenco: Delphine Seyrig (A / Mulher) - Giorgio Albertazzi (X / Estranho) - Sacha Pitoëff (M / Escort / Marido) - Luce Garcia-Ville - Héléna Kornel - François Spira - Karin Toche-Mittler
Pierre Barbaud - Wilhelm von Deek - Jean Lanier - Gérard Lorin - Davide Montemuri - Gilles Quéant - Gabriel Werner - Françoise Bertin.

Ficha Técnica: Título Original: L'Année Dernière à Marienbad - Gênero: Drama - Tempo de Duração: 94 minutos - Ano de Lançamento (França / Itália): 1961 - Estúdio: Argos Films / Precitel / Terra Film / Cinétel / Cormoran Films / Cineriz / Silver Films / Société Nouvelle des Films / Como Film / Les Films Tamara - Distribuição: Astor Pictures Corporation - Direção: Alain Resnais - Roteiro: Alain Robbe-Grillet - Produção: Pierre Courau e Raymond Froment
Música: Francis Seyrig - Fotografia: Sacha Vierny - Desenho de Produção: Jacques Saulnier
Direção de Arte: Georges Glon, André Piltant e Jean-Jacques Fabre - Figurino: Coco Chanel e Bernard Evein - Edição: Jasmine Chasney e Henri Colpi.
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3 comentários:

  1. Wendell, nunca vi este filme, mas uma das imagens que ilustra este post, desta onde os personagens andam por um jardim, já tinha visto num artigo que soltava muitos elogios sobre esta obra.

    Para mim é sempre prazeroso quando um realizador permite que o seu próprio público tire suas próprias conclusões com o que foi visto na tela. Mas é verdade que é raro recebemos essa "missão" ("Blow-up" foi o último filme ao qual assisti que elabora este desafio). E isto provavelmente deve tornar esta produção um grande filme.

    Abraços!

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  2. Eu li um artigo sobre esse filme em um livro do Roger Ebert que li, elogiando-o bastante. Queria assisti-lo.

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  3. Esse filme é demais mesmo. Mais um que vou procurar rever urgentemente.

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