terça-feira, 16 de setembro de 2008

O Sacrifício (Offret, Suécia,1986, 149 mins)
Minha nota: 10,0 -
Por Wendell Borges - 16/09/2008

"O assunto que abordo neste filme é, na minha opinião, o mais crucial: a ausência de espaço para a existência espiritual, em nossa cultura. Nós ampliamos a meta das nossas realizações materiais e conduzimos experiências materialistas sem levar em conta a ameaça que é privar o homem de sua dimensão espiritual. O homem está sofrendo, mas não sabe porque. Ele sente uma ausência de harmonia e procura a sua causa." Andrei Tarkovsky

Comentário (não leia caso não tenha visto o filme ainda): Há quatro pontos nesta obra-prima de Andrei Tarkovsky que merecem destaque. O filme foi realizado durante o seu exílio na Suécia após desiludir-se com a censura exercida a seus trabalhos na antiga URSS (estava fora da URSS desde 1984, em conflito com as autoridades), Tarkovsky estava com Câncer no pulmão e veio a falecer poucos meses depois da finalização da obra, o filme é uma homenagem ao seu filho Androshi, o mundo estava sob ameaça de uma guerra nuclear. Em 26 de abril de 1986 explodiu um reator da central de Chernobyl que liberou uma imensa nuvem radioativa contaminando pessoas, animais e o meio ambiente de uma vasta extensão da Europa. Toda esta angústia e reflexão existencial do diretor estão presentes no filme.

O personagem Alexander vivido pelo ator Erland Josephson, é um ex-ator e professor de estética e filosofia aposentado, que vive com os filhos Marta (Filippa Frazen) e o pequeno (Tommy Kjellqvist) e a esposa Adelaide (Susan Fleetwood) numa casa à beira-mar, além das empregadas Julia (Valérie Mairesse) e Maria (Gudrun Gísladottir), sendo esta segunda um dos vínculos espirituais que conduzem Alexander a sair de seu espaço fechado e cético. Os dois outros personagens importantes da trama são o carteiro Otto (Allan Edwall), amigo e conselheiro espiritual de Alexander e o médico Victor (Sven Wollter) que atende as neuroses da família. O longo plano do início do filme que dura cerca de 10 minutos mostrando as figuras de Alexander e seu pequeno filho (Tommy Kjellqvist) é um dos grandes momentos do filme.

Acompanhamos também durante este plano inicial a chegada do carteiro Otto, sempre enigmático e que serve como uma espécie de conselheiro espiritual de Alexander. É ele que em certo momento da trama aconselha Alexander a ir até a casa da empregada Maria e dormir com ela, pois isto fará toda a angústia que ele está sentindo cessar, além de que é a única maneira de salvar a humanidade que está prestes a sucumbir diante de uma catástrofe nuclear.

Outra cena cheia de tensão e dramaticidade é o ataque de histeria da esposa de Alexander, Adelaide interpretada pela atriz Susan Fleetwood ao assistir na TV um anúncio do fim do mundo, "Ninguém vai fazer nada?" pergunta ela angustiada diante de tal situação.

O plano que mostra a família em frente à TV recebendo os raios luminosos e a notícia da eminente catástrofe nuclear é das mais brilhantes do filme. Há ainda a inesquecível sequência que começa com Alexander empilhando vários objetos da casa e tocando fogo em uma toalha, então fica observando a casa arder em chamas sentado do lado de fora. Logo em seguida vemos a família chegar e os enfermeiros com a ambulância. Todos correm para pegar Alexander que tenta correr aos braços de Maria, cena tragicômica e cheia de beleza visual. Vemos um carro que estava próximo à casa explodir e os restos da casa desabarem. Estaria Alexander louco e muitas das situações do filme seriam apenas alucinações de sua mente doentia diante de tantas barbaridades e da eminência do film do mundo?

A cena final com a primeira e única fala do pequeno Tommy: " No princípio era o verbo" Por que papai? é daquelas que ficam para sempre na mente do espectador de cinema.

Obs: Tarkovsky só conseguiu realizar o filme porque teve ajuda do Ministério da Cultura da França e a colaboração de vários amigos de Ingmar Bergman incluindo Sven Nykvis, famoso por realizar a maioria das fotografias dos filmes de Bergman, além também da participação de Daniel, filho de Ingmar, na câmera.

Anotações para quem já viu o filme (Wendell Notes)

Diálogos iniciais
Um homem plantando uma árvore. Vemos uma casinha ao fundo. Uma estrada de terra e o mar atrás do homem que planta.
- Agora você tem que me ajudar filho!

1 - Seria diferente se nós não tivéssemos medo da morte.
2 - Somente com quase 20 minutos de filme é que vemos o rosto de Alexander mais de perto. Encostado à arvoré e divagando sobre o ser humano na civilização. Enquanto isso seu filho engatinha ao redor. Close-up aos 21 minutos.
3 - Estudei filosofia, história das religiões, estética.E agora, parece que estou amarrado, voluntariamente, mas, ao mesmo tempo estou feliz.
4 - Abandonou tudo após ter feito "Ricardo III" e os Idiotas. Shakespeare e Dostoievsky.
5 - A cena em que Julia (Valerie Mairesse) está olhando pela janela e a porta do armário ao lado abre lentamente. O que foi aquilo? algum espírito?
6 - É um mapa da Europa do século XVII. O carteiro Otto que havia conversado com Alexander sobre Nietzsche (conceito de eterno retorno) no início do filme traz-lhe um presente.
7 - Presente é sempre um sacrifício. O que seria se não fosse? Otto, falando sobre o mapa que trouxera para Alexander.
8 - Otto cumprimenta a emprega Maria que pede dispensa à patroa Adelaide (Susa Fleetwood)
9 - (A história de fantasma contada por Otto) Antes da guerra.Em konigsberg, vivia uma viúva com seu filho. Começou a guerra e o filho foi convocado. Ele tinha 18 anos. Antes de partir eles foram a um fotógrafo para tirar uma foto juntos. O filho foi para a guerra e,após alguns dias, morreu. A viúva, com o transtorno claro, esquceu a foto. (...) A guerra acabou e ela mudou para outra cidade, longe das memórias.(Adelaide questiona o fato de ela não ter procurado o fotógrafo que tirou a foto do filho) Uma vez em 1960 ela foi a um outro fotógrafo para tirar umas fotos suas para dar a uma amiga. Quando ela foi pegar as fotos, ela se viu na foto,junto com seu filho morto. Ele tinha 18 e ela a idade verdadeira em 1960. Falei com a mulher e tenho as fotos com ela de 1960 e o seu filho de 1940. Tenho uma cópia do nascimento do filho, uma cópia atestada da notícia da morte dele.
10 - Após Otto desmaiar e recobrar-se há uma belíssima cena com aviões passando por cima da casa (os aviões não são mostrados apenas ouvimos o som) e então vemos as portas do armário que a minutos atrás havia aberto as portas sozinho, dele cai uma jarra de leite que espatifa-se no chão e na sequência vemos Alexander olhando para uma miniatura da casa. Maria estava lá e Alexander pergunta quem fez aquilo. Maria responde que foi o filho de Alexander junto com Otto, presente de aniversário para ele.
11- Otto e Alexander observam o quadro "A adoração dos magos" de Leonardo da Vinci. Eu sempre tive medo de Leonardo, confessa Otto dizendo que acha o quadro Horrível!
12 - Um é forte e o outro é fraco. E sempre o mais fraco é quem ama mais...sem restrição. Agora parece que acordei de um sonho, como depois de uma vida. (Adelaide após ter tido um ataque de histeria)
13 - É verdade. É uma verdade sagrada. Ela tem poderes especiais. Eu sei, ela é uma feiticeira. ( Otto diz a Alexander que ele deve dormir com Maria para toda a sina encerrar-se. Cena estranha.)
14 - 2:05:56 - then let's go over the details.. (aparece esta legenda em inglês neste instante do filme.
15 - A cena em que Alexander empilha vários objetos e cadeiras da sala e toca fogo em uma toalha é interessante. Teve um efeito cômico em mim, eu sorri na cena.
16 - " No princípio era o verbo. Porque que papai? Este filme é dedicado ao meu filho Andriosh. Com esperança e fé.


Outras frases de Tarkovsky sobre arte e cinema
:

“O artista nunca trabalha em condições ideais, pelo contrário, o artista existe porque o mundo não é perfeito. A arte seria desnecessária se o mundo fosse perfeito, assim como o homem não procuraria por harmonia, apenas viveria nela”

“Se tentarmos agradar o público, aceitando acriticamente suas preferências, isso significará apenas que não temos respeito algum por ele, que só queremos o seu dinheiro. Em vez de educarmos o espectador através de obras de arte inspiradoras, estaremos apenas ensinando o artista a garantir seu lucro. De sua parte, o público – satisfeito com aquilo que lhe dá prazer – continuará firme na convicção de estar certo, uma convicção no mais das vezes sem fundamento. Deixar de desenvolver a capacidade crítica do público equivale a tratá-los com total indiferença”

“O meu objectivo é fazer filmes que ajudem as pessoas a viver, mesmo que às vezes causem tristeza.”

Trecho do livro Esculpir o tempo escrito por Tarkovsky: O que hoje passa por arte é, na sua maior parte, mentira pois é uma falácia supor que o método pode tornar-se o significado e o objectivo da arte. Não obstante, a maior parte dos artistas contemporâneos passa o seu tempo em exibições auto complacentes de método.

A questão da vanguarda é peculiar ao século XX, à época em que a arte vem progressivamente perdendo a sua espiritualidade. A situação é ainda pior nas artes visuais, que hoje estão quase inteiramente privadas de espiritualidade. A opinião corrente é a de que esta situação reflecte a “desespiritualização” da sociedade moderna, um diagnóstico com o qual, a nível de simples constatação da tragédia, concordo plenamente: trata-se mesmo de um reflexo da actual situação. A arte, porém, não deve apenas reflectir, mas também transcender; seu papel é fazer com que a visão espiritual influencie a realidade, como fez Dostoiesvski, o primeiro a expressar de forma inspirada o mal da época.



Mini-biografia
(Fonte principal: Wikipédia - A Enciclopédia livre)

Andrei Tarkovski

Andrei Arsenyevich Tarkovsky (ou Tarkovski) (Андре́й Арсе́ньевич Тарко́вский) (4 de abril de 1932, Sawraschje, perto de Moscou - 28 de dezembro de 1986, Paris) foi um dos mais criativos, inovadores e importantes cineastas advindos do cinema soviético. Seu cinema apresentava um caráter introspectivo, complexo e onde as questões humanas eram sempre colocadas em primeiro plano.

Biografia: Filho do poeta russo Arseni Tarkovski, autor de muitos dos poemas recitados em seus filmes, nasceu em 1932. Tendo se formado em Geologia, abandona a profissão para se dedicar ao cinema, iniciando sua carreira ao entrar no Instituto Central de Cinema da URSS (VGKI) em 1956. Em 1960 dirige seu primeiro filme um média metragem de 44 minutos ( O Rolo Compressor e O Violinista) e em 1962 ganha o Leão de Ouro do Festival de Veneza com o seu segundo trabalho, A Infância de Ivan.

Com o ambicioso filme Andrey Rublev (1966), sobre a vida do famoso pintor russo, o realizador apresenta características que formariam a base principal de seu cinema: intimista, conciso e com boa atenção para com os detalhes.

Em 1972 lança Solaris, um complexo filme misto ficção científica e drama existencial, com discretas citações do filme 2001: Uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick. Esse filme é considerado por muitos seu melhor trabalho.

Seus filmes posteriores, O espelho (1974), filme com altos traços autobiográficos e principalmente Stalker (1979), apesar de apresentarem a boa qualidade do diretor, são prejudicados pela forte censura existente na URSS.

Desiludido com o controle exercido sobre o seu trabalho, Tarkovski decide sair da URSS em 1983. Nesse mesmo ano lança Nostalgia. Ainda, depois de Nostalgia, filmaria O Sacrifício.

De personalidade irritadiça e muitas vezes angustiada, o realizador sempre recusou qualquer tipo de influência e controle sobre o seu trabalho. Sua obra é marcado por um profundo sentido espiritual, e seu compromisso com a arte ficou marcado em seu livro Esculpir o Tempo, obra essencial a todos os amantes da sétima arte.

Morreu em Paris em conseqüência de um câncer no pulmão em 1986.

As esposas de Andrei Tarkovksy

Irma Yakovlevna Raush (Russian: Ирма Яковлевна Рауш) (born April 21, 1938) É uma atriz Russa e foi a primeira esposa do diretor Andrei Tarkovsky. Ela trabalhou nos filmes Andrei Rublev e a Infância de Ivan (a mãe de Ivan). Já em Andrei Rublev ela interpretava a personagem chamada Durochka. Ela casou-se com Tarkovsky em 1956 e ficou com ele até o divórcio em 1970.

Larissa Tarkovskaya (1964-1998) (Russian: Лариса Тарковская). Ela é uma atriz russa e a segunda esposa de Andrei Tarkvosky. Casou-se com o diretor em 1970. Ela foi uma das assistentes de produção de Andrei Rublev. Morreu em Paris em 1998 e trabalhou nos filmes:
  • Nostalgia (1983), como diretora assistente (Larissa Tarkosky).
  • Stalker (1979), como diretora assistente.
  • O Espelho (1975), no papel da personagem Nadezha
  • O Espelho (1975), como diretora assistente.
  • Solaris (1972), como diretora assistente.
Obs: os dados com relação à data de nascimento dela foram retirados do IMDB na mini-biografia do diretor. Estes dados por exemplo não conferem com as indicadas no site Wikipedia. Caso alguém perceba algum erro nos dados biográficos acima por favor relatem-me através de comentários ou e-mails que corrigirei em seguida.

Filmografia de Andrei Tarkvosky (com cotação para os que já assisti até 16/09/2008):
  1. Hoje não haverá saída livre (1959)
  2. O Violino e o Rolo Compressor (1960)
  3. A Infância de Ivan (1962)
  4. Andrei Rublev (1966)
  5. Solaris (1972)
  6. O Espelho (1974)
  7. Stalker (1979)
  8. Nostalgia (1983)
  9. Tempo de Viagem (Documentário para a RAI) (1983)
  10. O Sacrifício (1986)
Sinopse: Um ator sueco aposentado vive no campo com a mulher e o filho pequeno. Angustiado, com dúvidas existenciais, ele sofre uma queda. O filme perde as cores e começa uma espécie de pesadelo. Acontece um ataque nuclear e todos parecem condenados a morte. O único jeito é recorrer a uma empregada que também é feiticeira.

Ficha Técnica: O Sacríficio - Título original: Offret (Suécia/ Inglaterra/ França, 1986) - Diretor: Andrei Tarkovski - Elenco: Erland Josephson, Susan Fleetwood, Allan Edwall, Guðrún Gísladóttir, Sven Wollter, Valérie Mairesse, Filippa Franzén - Idioma: Sueco (2.0) - Legendas: Inglês, espanhol, português - Gênero: Drama - Duração: 142 min. Cor - Distribuidora: Continental.
________________________________________________________________________

Nenhum comentário:

Postar um comentário