sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima, Mon Amour,França,1959,90 mins)
Minha nota: [10,0] -
Por Wendell Borges - 03/10/2008

Comentário (não leia caso não tenha visto o filme ainda): Mais um excelente filme de Alain Resnais, um dos precursores da Nova Onda francesa, a Nouvelle Vague, o filme era para ser apenas um curta-metragem e foi sendo prolongado até chegar nos 90 minutos de duração.

O próprio Resnais em uma entrevista que pode ser vista nos extras do DVD comenta o filme e fala um pouco também sobre o enigmático O Ano passado em Marienbad, filme que realizaria alguns anos depois deste.

A trama gira em torno de uma jovem e bela atriz francesa, interpretada com brilhantismo pela atriz Emmanuelle Riva,ela está participando das filmagens de um filme sobre a paz, na cidade japonesa de Hiroshima, devastada durante a 2ª Guerra Mundial por uma bomba atômica, lançada pelas tropas americanas, em retaliação ao ataque japonês na base de Pearl Harbor. Na cidade, ela conhece um arquiteto e político japonês, interpretado por Eiji Okada,juntos, decidem viver um affair no espaço de 24 horas, embora sejam casados, já que, no dia seguinte, ela deverá retornar à França.

O filme tem ritmo extremamente lento, assim como Marienbad e deve ser visto quando o espectador estiver bem desperto e disposto a assistir um filme com narrativa lenta, mas que irá proporcionar belos momentos de reflexão e emoção.

Quem já teve um grande e verdadeiro amor com certeza irá se emocionar com a narração de "Ela" (Riva) sobre seu caso de amor quando tinha apenas 18 anos. Apaixonou-se por um soldado alemão e quando estava prestes a fugir com ele, ocorre um desastre, ele é assassinado e ela passa por uma crise psicológica, sendo trancafiada no porão de sua casa pelos próprios pais. (lembrando que a Alemanha era inimiga da França na segunda guerra mundial). As reflexões de "Ela" sobre a memória, o amor e o tempo são os campos de investigação que Alain Resnais gosta de imprimir em seus filmes. São espaços espirituais feitos para o espectador realmente viajar na sensibilidade, tornar-se mais atento quem sabe, ao fluxo do tempo, e também, com relação à memória e à consciência/inconsciência dos fenômenos que nos atravessam diariamente. Obra-prima imperdível.

Obs: Alain Resnais trata-se do único autor, no sentido de fazer cinema de autor, na concepção francesa instituída pela Nouvelle Vague, a não escrever seus próprios roteiros. Ele sempre trabalhou com roteiristas, imprimindo apenas os seus pontos de vista tanto nos roteiros quanto no estilo da filmagem.



Os protagonistas


Emmanuelle Riva - Nasceu em 24/02/1927 - Está hoje com 81 anos e continua atuando como atriz. Grand alibi, Le (2008) foi seu último trabalho.

Eiji Okada - Nasceu em Chiba no Japão em 13 de junho de 1920 e faleceu em 14 de setembro de 1995. (Ataque cardíaco aos 75 anos)






Anotações para quem já viu o filme
(Wendell - Notes)

MOMENTOS INICIAIS

- Você não viu nada em Hiroshima. Nada.

Eu vi tudo. Eu vi o hospital, tenho certeza disso. Existe um hospital em Hiroshima. (há um corte e vemos a imagem do hospital, antes havia uma imagem em close dos braços e costas de um casal que se abraçava) Como eu não o vi?

Você não viu o hospital em Hiroshima. Você não viu nada em Hiroshima.

Quatro vezes no museu.

Qual museu em Hiroshima?

(diversas imagens de escadas e detalhes de um prédio, o interior do museu.)

Quatro vezes no museu em Hiroshima. Vi as pessoas passeando. Pessoas passeando, pensando, no meio de fotografias, as reconstruções, sem precisar de mais nada. As fotografias, as fotografias, as reconstruções, sem precisar de mais nada. As explicações, sem precisar de mais nada. Quatro vezes no museu em Hiroshima. Eu observava as pessoas. Eu mesma, perdida em devaneios, olhava o metal queimado, (a cena de uma maquete é mostrada) o metal retorcido,o metal tão vulnerável quanto a carne. Eu vi o buquê de cogumelos. Quem teria pensado nisso? Carne humana, pendurada, como se estivesse viva, sua agonia é recente. Pedras. Pedras queimadas. Pedras estilhaçadas. Partes de cabelos anônimos que a mulher de Hiroshima, andando pela manhã encontraria caído no chão.

Você não viu nada em Hiroshima. Nada.

As reconstruções eram as mais autênticas possíveis. O filme era o mais autêntico possível.

(VEMOS IMAGENS DE CORPOS DILACERADOS E ESANGUENTADOS. CRIANÇAS SANGRANDO E CHORANDO.

Sempre chorei pela destruição de Hiroshima. Sempre (nesta cena uma mulher ergue-se em meio aos escombros)

Não. O que havia lá para você chorar?

2 - Você inventou tudo isso. Eu não inventei nada. (Há no filme uma reflexão sobre a ilusão, o que realmente vemos, no que realmente acreditar.)

3 - Assim como a ilusão que existe no amor, que você não pode esquecer, então eu estava com a ilusão de que nunca esqueceria Hiroshima. Assim como no amor.

4 - Assimo como você eu sei quanto custa esquecer. Não, você não sabe quanto é difícil esquecer.

5 - Não, você não é dotada de memória. Assim como você, também tenho me empenhado com toda minha força para não esquecer. Assim como você, eu esqueci.

6 - Por que negar a óbvia necessidade de lembrar?

7 - 200.000 mortos e 80.000 feridos em 9 segundos.

8 - Estuário Delta do rio ota.

9- Você tem uma pele tão bonita. Você! (finalmente após os momentos iniciais vemos o rosto da atriz e seu amante)
- Sim. Eu. Está surpresa?
- Você é totalmente japonês ou não?
- Sou totalmente japonês. Seus olhos são verdes, não é?
- Sim, acho que são verdes.
- Você é como mil mulheres numa só.
- Isso é porque você não me conhece.
- Esta pode não ser a única razão.
- Não me importo de ser mil em uma para você. (ruído, alguém tossindo) Ouça. São 4:00.
- Por quê?
- Não sei quem é.Todo dia ele passa às 4:00 e tosse. Você estava aqui em Hiroshima?
- Claro que não.
- Certo. Como sou tola.
- Mas minha família estava em Hiroshima. Eu estava fora lutando na guerra. (..) Por que você está em Hiroshima?
- Um filme.

10 - Por que você quer ver tudo em Hiroshima?
- Porque me interessa. Tenho minha própria opinião sobre isso.Por exemplo, olhando bem de perto as coisas vemos que há algo para aprender.

11- Tenho uma moral duvidosa. Você sabe.
- O que quer dizer com ter "Moral duvidosa"?
- Ser duvidosa com relação à moral dos outros.

12 - Nevers, cidade francesa bastante citada por Ela (EmmanuEla Riva) durante o filme. "Never é uma cidade do mundo. Com a qual sonho quase toda noite e da qual quero menos me lembrar." Ela fala sobre Nevers. "Como era essa loucura em Nevers?" "Loucura é como inteligência. Não dá para explicar assim como a inteligência. Ela vem até você, te consome e então você entende. Mas quando passa, você não entende mais."

13 - Quando Ela e Lui saem do prédio onde estavam vemos o nome: HOTEL NEW HIROSHIMA.

14 - Aqui em Hiroshima não achamos graça filme sobre a paz. (lui)

15 - Se uma bomba atomica é igual a 20.000 mil bombas comuns e uma bomba de hidrogêneo é igual a 1.500 bombas atômicas o que fariam as 40.000 bombas atômicas e de hidrogêneo frequentemente estocadas no mundo?. Elas são um tributo a geniosidade científica dos homens. Mas infelizmente a inteligência política dos homens é 100 vezes mais atrasada do que a inteligência cientifica e por esse motivo eles perdem nosso respeito. PAREM COM OS TESTES TERMONUCLEARES! ( vários cartazes exibindo mensagens sobre as bombas)

16 - Ela está em Unzen, nas montanhas. Eu estou sozinho. (Ele fala a Ela onde está a esposa dele)

17 - Ela fala sobre uma antiga paixão que teve aos 18 anos com um soldado alemão de 23 anos em Nevers.

18 - Nevers. População de 40.000 mil habitantes. (hoje com 43.082 habitantes ) Construída como uma metrópole. Uma criança pode andar em volta de todo o lugar. Nasci em Nevers. Cresci em Nevers. Aprendi a ler em Nevers. Foi lá que fiz 20 anos.
- E o loire?
- É um rio totalmente inavegável. Está sempre vazio devido ao seu curso irregular e bancos de areia. Na França, é considerado um rio muito bonito, principalmente devido à sua iluminação.

19 - Descobrimos que Ela ficou louca após a morte de seu antigo amor e os pais a trancaram no porão.

20 - A Farmácia de meu pai fecha por causa da desgraça. (Ela nos braços de Lui narra seu desespero do passado)

21 - Alguém atirou nele de um jardim, (Bernard Fresson)o ator que interpreta o amante de Ela. Ela conta que marcou com ele ao meio dia nas margens do rio Loire. Quando chegou ao local o viu deitado no chão, ainda não estava morto. Fiquei ao lado do corpo dele o dia todo e a noite seguinte inteira. Na manhã seguinte, eles vieram para levá-lo num caminhão. Ele foi meu primeiro amor! (Ela fala sobre sentir que o corpo morto dele abraçado ao dela eram um só) Lui a esbofeteia nesta hora, duas tapas na cara que chama a atenção de algumas pessoas do restaurante.
- Então um dia eu gritei de novo e eles me colocaram de volta no porão. (falas após os tapas no rosto) Acho que foi ali que deixei de ter ódio. Tornei-me racional. (Parti para Paris uma noite de bicicleta, a mãe de Ela a aconselha ir até Paris.)

22- Em alguns anos, quando eu tiver te esquecido, e outras aventuras como esta me acontecerem por força do hábito, lembrarei de você como símbolo do esquecimento do amor. Lembrarei dessa história como o horror do esquecimento. Já sei disso.

- As coisas nunca param à noite em Hiroshima?
- Não. Nunca param.
- Gosto disso. Cidades onde sempre tem alguém acordado. Dia ou noite.

23 - O tempo passará, apenas o tempo. E o tempo virá quando não soubermos mais como nomear o que nos une. Esse nome será apagado gradualmente da nossa memória até desaparecer completamente. (Ela andando pela cidade em meio às suas divagações)

24 - Hiroshima é seu nome. Sim, é meu nome. E seu nome é Nevers. Nevers na França.

EXTRAS: O diretor Alain Resnais concede uma curta entrevista que pode ser vista no DVD de Hiroshima Mon Amour. O cinema está morto, vivo ou ainda está para nascer? Ele flui como um rio. (responde sorrindo o eclético Alain Resnais)

Curiosidades

- É o 1º longa-metragem dirigido por Alain Resnais.
- Foi pioneiro no uso de cortes para mostrar cenas em flashback, mesclando com cenas da atualidade.
- As filmagens ocorreram entre 1º de setembro e 24 de dezembro de 1958.
- O ator Eiji Okada não sabia falar francês e, com isso, teve que memorizar foneticamente cada palavra dita em cena.

Prêmios: Academia Britânica - Prêmio das Nações Unidas (Alain Resnais)
Sindicato dos Críticos de Cinama da França - Prêmio de Melhor Filme
Indicações: Academia de Hollywood - Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original
Academia Britânica - Indicado aos Prêmios de Melhor Filme e Melhor Atriz Estrangeira (Emmanuelle Riva).

Sinopse: Hiroshima, 1959. Uma atriz francesa casada (Emmanuelle Riva) veio de Paris para trabalhar num filme sobre a paz. Ela tem um affair com um arquiteto japonês (Eiji Okada) também casado, cuja esposa está viajando. Nos dois dias que passam juntos várias lembranças vêem à tona enquanto esperam, de forma aflita, a hora da partida dela. Ela conta que foi "tosquiada", pois se apaixonou por um alemão (Bernard Fresson) quando tinha apenas 18 anos e morava em Nevers, sendo libertada no dia em que seu amor foi morto, já no final da 2ª Guerra Mundial. Por ter amado um inimigo ela foi aprisionada por sua família numa fria e escura adega e agora, 14 anos depois, novamente sente o gosto de viver um amor quase impossível.

Elenco:
Emmanuelle Riva - Ela
Eiji Okada - Ele
Stella Dassas - A mãe
Pierre Barbaud - O pai
Bernard Fresson - O amante alemão

Ficha Técnica: Direção: Alain Resnais - Roteiro: Marguerite Duras - Gênero: Drama/Guerra/Romance - Origem: França/Japão - Duração: 90 minutos.
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4 comentários:

  1. Leandro1:18 PM

    Aí está mais um filme nota 10 que eu não vi e também não encontrei por aqui... =/

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  2. Poxa, parece ser um puta filme! Vou procurar esse aí urgentemente depois desses comentários!

    Ciao!

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  3. Wendel, qual a edição que vc viu esse dvd? A que eu tenho, pela distribuidora Aurora DVD, não tem essa entrevista com o Alain Resnais que vc mencionou. Gostaria muito de saber onde posso consegui-la,
    Obrigado e parabéns pelo blog
    Ailton de Oliveira

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  4. o que eu possuo é o da Continental. VTO continental, está sendo vendido pelas lojas submarino. Foi lançado em 2005 e é o lançamento mais recente deste filme. tem entrevistas com Resnais e com a atriz Emmanuelle Riva.

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