quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Os Incompreendidos (Les Quatre cents coups,França,1959,99 mins)
Minha nota: [10,0] -
Por Wendell Borges - 16/10/2008

Comentário: Como professor, tendo diariamente contato com diversos adolescentes, eu sei exatamente o quão complexa e complicada é esta fase da vida. (Opa! Eu também já passei por ela). A escola é um painel grandioso onde as manifestações mais diversas de auto-afirmação encontram-se diariamente diante de nossos olhos. É muito grande a disputa entre os adolescentes pela atenção e reconhecimento, e para alguns, devido a inúmeros fatores físicos e psicológicos, esta busca pela auto-afirmação acarreta muitos problemas.

Para os profissionais da educação, encontrar soluções para os alunos mais problemáticos e que demonstram apatia para com os estudos é tarefa diária, e bastante árdua. Um dos grandes problemas, além das condições de trabalho e estímulo bastante aquém do ideal, é o descaso, o despreparo e a desestrutura da família. No filme Os Incompreendidos, uma das obras-primas da Nouvelle Vague francesa, temos um relato singelo e poético desta fase complicada da vida. Nas palavras do diretor François Truffaut (1932-1984): “A adolescência é uma fase reconhecida pelos educadores e sociólogos, mas negada pela família, pelos pais (...) O mundo é injusto, então é preciso se virar: faz-se o que se deseja, mesmo que isso seja proibido”.

Os Incompreendidos narra a história de Antoine Doinel (Jean- Pierre Léaud- 1944), um adolescente que não suporta mais a autoridade dos pais e da escola e busca refúgio nos livros (ele é leitor de Balzac), nas amizades e na prática de pequenos delitos.

A escola já mudou bastante, o autoritarismo dos professores, como é o caso do Professor Petite Feuille, interpretado por Guy Decomble (1910-1964), mostrado em Os Incompreendidos, um professor arrogante e extremamente bruto e autoritário, não consegue ter muito sucesso nos dias atuais, sendo substituído pelos mais carismáticos e que consigam aproximação maior para tentar entender o universo complexo da adolescência.

Os Incompreendidos é um daqueles panfletos que escancaram a complexidade de um estado de ser, de um sistema que busca uma solução para um problema que é complexo demais, um problema chamado "Ser humano".

François Truffaut, já demonstrava em seu primeiro longa-metragem a genialidade de um grande artesão das imagens, recebeu a Palma de Ouro de melhor filme em Cannes por este trabalho e o ator Jean-Pierre Leaud, tornou-se, com seu rosto tristonho e sua interpretação soberba, um ícone da Nouvelle Vague e da angústia adolescente. Ele protagonizou uma série de filmes com o mesmo personagem, todos dirigidos por Truffaut.


Algumas curiosidades

Obs:
O professor de Inglês que aparece no filme é interpretado por Pierre Repp (1909-1986).

Obs 2: Claire Maurier, a mãe de Antoine ainda é viva e está atualmente com quase 90 anos. Ela nasceu em 1929.

Obs 3: Albert Rémy, o pai de Antoine, faleceu em 1967. (1911-1967)

Obs 4: Antoine é uma espécie de alter ego de Truffaut, já que ele teve também uma infância difícil ao lado da mãe e do padrasto.

Obs 5: Jean-Pierre Léaud tinha apenas 15 anos quando interpretou Antoine Doinel em Os incompreendidos.

Obs 6: O diretor François Truffaut aparece em uma pequena ponta, como um homem fumando um cigarro.

Sinopse: Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) é o filho negligenciado de Gilberte Doinel (Claire Maurier), que parece ter tempo para tudo menos o bem-estar da criança. Julien Doinel (Albert Rémy) não é o pai biológico, mas cria o menino como se fosse seu filho. Gilberte está tendo um caso e não se surpreende quando, por acaso, Julien fica sabendo que Antoine não está indo à aula, pois ela sabia que na hora do colégio o filho a tinha visto com seu amante. A situação se agrava quando Antoine, para justificar sua ausência no colégio, "mata" a mãe. Quando seus pais aparecem na escola, a verdade é descoberta e Julien o esbofeteia na frente de seus colegas. Após isto ele foge de casa e arruma um lugar para dormir. Paralelamente seus pais culpam um ao outro pelo comportamento dele, após lerem a carta na qual ele se despede. No outro dia Antoine vai à escola normalmente. Lá sua mãe o encontra e se mostra preocupada por ele ter passado a noite em uma gráfica. Ela alegremente o aceita de volta, mas os problemas não acabam. Antoine se desentende com um professor, que o acusa de plagiar Balzac. Como ele odeia a escola, sai de casa de novo e para viver é obrigado a fazer pequenos roubos.

Elenco: Jean-Pierre Léaud (Antoine Doinel) - Claire Maurier (Gilberte Doinel) - Albert Rémy (Julien Doinel) - Guy Decomble (Petite Feuille) - Georges Flamant (Sr. Bigey) - Patrick Auffay (Rene) - Richard Kanayan (Abbou) - Yvonne Claudie (Madame Bigey) - Robert Beauvais (Diretor da escola) - Jacques Monod (Comissário) - Pierre Repp (Professor de inglês) - Henri Virlojeux (Vigilante noturno) - François Truffaut .

Prêmios: Festival de Cannes - Prêmio de Melhor Direção
Indicações: Academia de Hollywood - Indicado para o Oscar de Melhor Roteiro Original
Academia Britânica - Indicado para os Prêmios de Melhor Filme e de Melhor Revelação (Jean-Pierre Léaud)

Ficha Técnica:Direção: François Truffaut - Roteiro: François Truffaut, Marcel Moussy - Produção: François Truffaut - Música Original: Jean Constantin - Fotografia: Henri Decaë - Edição: Marie-Josèphe Yoyotte - País: França - Gênero: Drama.
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