sábado, 15 de novembro de 2008

Bezerra de Menezes - O Diário de um espírito (Brasil,2008,89 mins)
Minha nota: [6,9] -
Por Wendell Borges - 15/11/2008

“O materialismo não preenche a existência”

Comentário: Mesmo com todos os escassos recursos financeiros, foi produzido por uma entidade beneficente do Ceará chamada Estação da Luz, ajudada pelas leis de incentivo como a ANCINE e a lei Rouanet (Lei federal nº 8.313 de incentivo à cultura),custou R$ 2,7 milhões, valor rapidamente recuperado em apenas um mês e meio, Bezerra de Menezes (1831-1900) caiu nas graças do público e parte do fenômeno se explica pela temática do filme, o Brasil é o maior país espírita do mundo, são cerca de 20 milhões de adeptos, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No Orkut, há mais de mil comunidades que levam o nome do “Médico dos Pobres”, nome pelo qual o médico Bezerra de Menezes ficou conhecido, uma das maiores comunidades tem 33 mil participantes. Eu fiquei imaginando o que um diretor como Andrei Tarkovski faria se a ele pudesse ter sido dada a incubência de filmar a vida de Bezerra de Menezes, lembrando o que o diretor fez com Andrei Rublev.

A direção no entanto ficou por conta de Glauber Filho (que não tem nenhum parentesco com Glauber Rocha) e Joe Pimentel que não conseguiram deixar o filme esteticamente atraente, apesar de que a realização do filme parece ter sido pensada de alguma forma para que pudesse atrair o maior número de simpatizantes da doutrina e do público em geral.

Talvez não tenha sido a intenção ou a preocupação dos realizadores de fazer um filme com qualidades técnicas e estéticas, mas tão somente em conseguir fazer com que o filme fosse bem aceito pelo público, seja ele adepto ou não do espiritismo. A censura livre parece estar ajudando na bilheteria, pois na sessão em que fui assistir o filme acredito que metade do público era de adolescentes e crianças numa faixa etária que ia dos 12 aos 16 anos. Infelizmente este público mirim não veio com intenção de assistir ao filme, mas sim de zoar com o público que ali estava para assistir, os malditos flashes das câmeras digitais e dos celulares foram acionados várias vezes pela animada platéia juvenil o que irritou vários espectadores que estavam próximos ao grupo dos adolescentes.

Voltando ao filme, ele é rico em boa vontade de seus realizadores de trazerem a mensagem espírita e o nome desta grande alma humana à memória de todos aqueles que desconheciam a sua existência, mas em termos de audiovisual é esteticamente pobre. A parte técnica realmente deixou a desejar.

Destaque para a cena em que Bezerra é instigado por um materialista ateu a dar provas concretas da existência dos espíritos e a que ele entrega seu anel de formatura para que uma mulher pobre possa vendê-lo e comprar os remédios que precisava.

O cartaz que estampa o nome de Caio Blat no elenco é realmente propaganda enganosa, eu não sei até que ponto a presença do ator atrai algum público, mas sua participação no filme é apenas uma ponta que acredito não chega a um minuto.

Sou uma pessoa que busca espiritualizar-se independente de instituições religiosas e aprecio filmes que tentam trazer paz de espírito e causar impacto às nossas almas. Não sei também até que ponto e quais são as fórmulas mágicas para se conseguir realizar bons filmes que criem espaços espirituais, mas se uma coisa eu concordo é quando Andrei Tarkovski diz: “Se tentarmos agradar o público, aceitando acriticamente suas preferências, isso significará apenas que não temos respeito algum por ele, que só queremos o seu dinheiro. Em vez de educarmos o espectador através de obras de arte inspiradoras, estaremos apenas ensinando o artista a garantir seu lucro. De sua parte, o público – satisfeito com aquilo que lhe dá prazer – continuará firme na convicção de estar certo, uma convicção no mais das vezes sem fundamento. Deixar de desenvolver a capacidade crítica do público equivale a tratá-los com total indiferença”.

Para finalizar este breve comentário, o filme acompanha a vida do médico espírita Bezerra de Menezes , com narração e interpretação do ator Carlos Vereza. Bezerra de Menezes deve ser visto sim, mensagens de paz e espiritualidade devem ser divulgadas, mas ressalvas sejam feitas quanto às qualidades estéticas do filme que deixam a desejar em muitos quesitos.


Grande pensamento de Bezerra de Menezes: "O médico verdadeiro não tem o direito de acabar a refeição, de escolher a hora, de inquirir se é longe ou perto. O que não atende por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou tempo, ficar longe, ou no morro; o que sobretudo pede um carro a quem não tem como pagar a receita, ou diz a quem chora à porta que procure outro – esse não é médico,é negociante de medicina, que trabalha para recolher capital e juros os gastos da formatura. Esse é um desgraçado, que manda, para outro, o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única espórtula que podia saciar a sede de riqueza do seu espírito, a única que jamais se perderá nos vaivens da vida".

Sinopse: O universo do sertão permeia a trama no início do filme, na qual Bezerra de Menezes vive a infância e a adolescência. Aos dezoito anos, o protagonista inicia no Rio de Janeiro seus estudos de Medicina. Lá, elegeu-se vereador e deputado em várias legislaturas e defendeu as idéias abolicionistas. Mas, o que lhe trouxe o maior reconhecimento de seu povo foi o trabalho anônimo realizado em prol dos desfavorecidos. Por conta disso, ficou conhecido como o “Médico dos Pobres”. Seja como político devotado às causas humanitárias ou como médico conhecido por jamais negar socorro a quem batesse à sua porta, Bezerra de Menezes tornou-se um exemplo de homem e escreveu uma história de vida marcada pelo amor e pela caridade.

Curiosidades
- Primeiro longa-metragem Cearense passado no Século XIX o filme será um marco na Cinematografia do Estado.
- Realizado com a mais avançada tecnologia digital e finalizado em 35mm, o longa-metragem “Bezerra de Menezes - O Diário de Um Espírito” fará uma fiel reconstituição de época para representar o Ceará e o Rio de Janeiro do Século XIX. Com cuidadosa pesquisa história de Luciano Klein, biógrafo de Bezerra de Menezes, aliada a extensa pesquisa iconográfica nos acervos mais importantes do país, a vida de Bezerra de Menezes será contada com passagens ficcionais e relatos de pesquisadores de sua vida e obra.
- A produção teve locações no Ceará, Pernambuco e Rio de Janeiro e contou com o talento do ator Carlos Vereza interpretando Bezerra de Menezes, além de grande elenco Cearense.
- Glauber Filho realizou vários curtas-metragens, entre eles "A Doença do Poço", "Borracha para Panela de Pressão" e "San Pedro, um Navio a Deriva". Produziu e dirigiu o longa "Oropa, França, Bahia", premiado pela Fundação Vitae e MacArtur. Recebeu diversos prêmios em festivais nacionais e internacionais de cinema, como o Festival Internacional de Figueira da Foz (Portugal), Festival de Cinema de Tondela (Portugal) e Videofest (Berlim- Alemanha). Como diretor publicitário, atuou em grandes produções cearenses, e também presidiu a TV Ceará entre 2003 a 2006.
- Joe Pimentel é fotografo e diretor. Já atuou como Diretor de Fotografia e Assistente de Direção de diversas produções, como "Sertão das Memórias", "Um Cotidiano Perdido no Tempo", "Villa Lobos - Uma Vida de Paixão", "Milagre em Juazeiro" e "O Noviço Rebelde". Como diretor, realizou vários curtas, entre eles "Retrato Pintado", filme que lhe rendeu as maiores premiações do cinema nacional como melhor filme e direção nos festivais de Brasília, Recife, Curitiba e Ceará. Atualmente, ele finaliza o curta "Câmara Viajante", e dirige a Trio Filmes.
- O filme Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito estreou em 29 de agosto de 2008, fazendo a melhor média do final de semana, 1200 pessoas por cópia. O resultado representa quase o dobro de público por cópia em relação ao segundo colocado. No total, foram 50.000 espectadores. Bezerra de Menezes foi lançado em diversas cidades do Brasil no dia do aniversário do cearense que dá nome ao filme e é considerado médico dos pobres.

Elenco: Bezerra de Menezes: Carlos Vereza - Bezerra de Menezes Jovem: Magno Carvalho - Bezerra de Menezes Criança: Lucas Ribeiro - Antonio Adolfo Bezerra de Menezes: Cláudio Raposo - Dona Fabiana: Juliana Carvalho - Maria Cândida: Mirelle Freitas - Cândida Augusta: Alexandra Marinho - Irmã de Bezerra de Menezes: Ana Rosa - Soares: Everaldo Pontes - Cunhada de Bezerra de Menezes: Larissa Vereza - Líder do centro espírita: Lúcio Mauro
Senhor Materialista: Pedro Domingues - Doutor Leopoldino: B. de Paiva - Hermínia: Taís Dahas - Pai de Hermínia: Fernando Piancó - Mãe de Hermínia: Ana Cristina Viana - Maria do Carmo: Cristiane de Lavôr - Padre exorcista: Rodger Rogério - Pedinte: Renato Prieto - Freire Alemão: WJ Solha - Altino: Robério Diógenes - Estudante: Romário Fernandes - Mãe aflita: Andrea Piol - Deputado Gaspar Drumond: Fernando Teixeira - Deputado Andrade Figueira: Rutílio Oliveira - Médium João Gonçalves do Nascimento: Tarcísio Pereira - Médico Mário Lacerda: João Dantas - Senhora: Nanda Costa - Farmacêutico: Fernando Catoni - Participação Especial: Militar: Caio Blat - Militar: Paulo Goulart Filho.

Ficha Técnica: Título Original: Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito - Gênero: Drama - Duração: 75 min - Lançamento (Brasil): 2008 - Distribuição: FOX Film do Brasil - Direção: Glauber Filho, Joe Pimentel - Assistente de direção: Armando Praça - Roteiro: Andréa Bardawill, Luciano Klein - Produtor Executivo: Isabela Veras, Sidney Girão, Luís Eduardo Girão - Co-produção: Trio Filmes, ONG Estação da Luz - Música: Ítalo Maia - Som: Érico "Sapão" - Som direto: Danilo Carvalho - Fotografia: Cezar Moraes e Antonio Luiz Mendes - Direção de Arte: Andre Scarlazzari - Figurino: Diogo Costa - Edição: José Pimentel, Charles Northrup, Glauber Filho - Maquiagem: Amaro Bezerra.
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