quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Solaris (Solyaris,Russia,1972,165 mins)
Minha nota: [10,0] -
Por Wendell Borges - 19/11/2008

Comentário: Solaris é o tipo de filme que exige do espectador uma concentração total, paciência e muita reflexão. É necessário respirar fundo, arregalar os olhos físicos e os olhos da imaginação e sacudir a cabeça. o diretor russo Andrei Tarkovsky (1932-1986) nos convida a olhar, ver e enxergar, a pensar, é uma tentativa de sentir o tempo, de pensar sobre a vida, a morte, as angústias e reflexões do amor e do ser humano. São tantos os diálogos, as situações e os momentos de beleza visual que o filme traz que seria necessário elaborar um trabalho monográfico, uma verdadeira tese para se analisar o filme de forma mais aprofundada. O roteiro de Andrei Tarkovsky e Fridrikh Gorenshtein foi baseado no livro do escritor polonês Stanislaw Lem (1921-2006).

A trama gira em torno do psiquiatra Kris Kelvin (Donatas Banionis), que tem de viajar para a estação Solaris e fazer um relatório se o projeto científico em torno do planeta Solaris deve ou não continuar.

Aqui neste pequeno comentário vou apenas destacar as principais reflexões que o filme me trouxe e destacar algumas imagens e sequências de beleza visual:

1 - A questão da ética na ciência. É verdade que ciência é amoral e a moral não pode ser científica? Quais são as relações de fato e de direito entre a Ciência e a Etica? As questões éticas da humanidade devem interferir no avanço científico?
Diálogo entre Burton e Kris Kelvin antes de partir para a estação Solaris.
Burton faz uma observação, contradizendo a posição pragmática de Chris: “Quer destruir o que ainda não somos capazes de compreender?
"Não sou adepto do conhecimento a qualquer custo. O conhecimento só é verdadeiro quando ético.Só o homem torna a ciência imoral. Lembre-se de Hiroshima.” (Kris)
“Não faça então a ciência amoral. É estranho." (Burton) A posição ética é intrínseca à atividade humana. A ciência não poderia ser nem amoral, nem imoral. Para ser verdadeiramente ciência precisaria ter um compromisso ético-moral. ( é o que Burton tenta fazer Kris lembrar-se)
“Não tem nada de estranho.Também não tem a certeza de que não foram alucinações. (referindo-se às visões de Burton em Solaris. Burton tivera várias alucinações durante sua ida à estação. Kris quer fazer Burton refletir sobre o fato de que mesmo que a posição ética seja intrinsecamente humana, ela não nos garante nada ).

2 - A relação de Kris com o espectro de sua esposa Hari. As discussões de ambos sobre o amor, sobre a essência da vida, do ser humano e nossas relações com a morte, o passado e as memórias.

3 - A belíssima cena em que Hari observa o quadro "Caçadores na neve" de Pieter Brughel (1525-1569), este quadro de Brueghel transmite uma paz e ao mesmo tempo uma angústia. Tarkovsky faz a câmera passear de forma lenta nos detalhes do quadro e nos traz a reflexão contrastante entre a vida dos caçadores da idade média, nos remetendo a um diálogo futuro na trama quando Kris conversa com Snaut:

De todos os homens, os mais felizes são os que nunca se interessaram por estas questões malditas. (snout) (o diálogo remete à figura dos caçadores, homens que viviam a sua natureza física de forma mais intensa, preocupando-se mais com sua sobrevivência do que com problemas metafísicos.)
- Só se importa quem tem vontade de saber. Porém, para se preservarem, as simples verdades humanas requerem mistérios. O mistério da felicidade, da morte, do amor. Até pode ter razão. Mas procure não pensar nisso. Pensar nisso seria a mesma coisa que saber o dia da morte. Entretanto, o desconhecimento deste dia nos torna, no fundo, imortais.

- Destaques para as cenas em que Burton dirige um carro pela cidade com a imagem de uma criança atrás, sua possível perseguição fantasmagórica, as cenas em que Kris admira a beleza de um lago próximo à sua residência e a cena em que Kris flutua com o espectro de sua esposa.

Obra-prima de um dos diretores que mais admiro. Para ver e rever sempre.

Anotações para quem já viu o filme (Wendell - Notes)

1 - A imagem de um cavalo aparece duas vezes durante a primeira meia hora de filme.
2 - Não posso guiar-me por impulsos da alma: Não sou poeta. Tenho um objetivo concreto: tirar a estação da órbita , encerrando os estudos e legalizando a crise da solarística ou tomar medidas extremas, sujeitando o oceano a uma irradiação intensa.
3 - O conhecimento só é verdadeiro quando ético.
4 - só o homem torna a ciência imoral. Lembre-se de Hiroshima.
5 - Sabe-se que o oceano de Solaris é uma espécie de cérebro.
6 - Só três dos 85 tripulantes continuam trabalhando nela. São eles: o astrobiólogo Sartorius, o cibernético Snout e o fisiologista Guibarian, que se dedica ao problema de.... (cena interrompida, a imagem de Burton entra na tela)
7 - Chris, já na estação Solaris vê sua mulher Hari que havia morrido há 10 anos. Materializou-a na imaginação, diz Snaut a Chris.
8 - Regeneração, a imortalidade é um problema de Fausto!
9 - Não sou Hari, a tal Hari morreu, envenenou-se (o espectro de Hari se perguntando de onde ela veio)
10 - Depois de anos de vida em comum as palavras se tornam desnecessárias (Kris Kelvin conversando com o espectro de sua esposa)
11- Só sei uma coisa senhor, Quando estou dormindo, desconheço o medo, as esperanças, os trabalhos e a beatitude. Agradeço a quem inventou o sono, esta única balança que iguala um pastor a um rei, um imbecil a um sábio. Mas também tem o seu lado negativo, se parece muito com a morte. (Kris lendo trecho do livro clássico de Miguel de Cervantes (1547-1616) , Dom Quixote. A fala é do personagem Sancho Pança.)
12 - Não leve para a cama um problema científico. (Snaut)
13 - O sofrimento sombreia a vida,a enche de suspeitas. (...) Será a vida prejudicada pelo que não lhe é indispensável? Não.Claro que não. Lembra-se das atribulações de Tolstoi que sofria por não poder amar toda a humanidade? (Kris)
14- O amor é algo que nós podemos sentir Mas nunca explicado. Só se pode explicar a idéia. O homem ama o que pode perder. A ele próprio, uma mulher,sua pátria,até hoje, a humanidade e a terra ficaram fora do alcance do amor. Somos tão poucos! uns escassos milhares de milhões. Até me parece que estamos aqui para, pela primeira vez vermos a humanidade como alvo do amor. (Kris)
15 Guibarian não morreu de medo. Morreu de vergonha. A vergonha salvará a humanidade! (Kris)
16 - Você está feliz? Felicidade é um conceito antiquado. (Kris respondendo à pergunta do espectro de sua mãe)
17 - De todos os homens, os mais felizes são os que nunca se interessaram por estas questões malditas.(snout)
- Só se importa quem tem vontade de saber. Porém, para se preservarem, as simples verdades humanas requerem mistérios. O mistério da felicidade, da morte, do amor. Até pode ter razão. Mas procure não pensar nisso. Pensar nisso seria a mesma coisa que saber o dia da morte. Entretanto, o desconhecimento deste dia nos torna, no fundo, imortais.
18 - Kris termina abraçado, ajoelhado aos pés de seu pai. A câmera vai se afastando até um Plano Geral onde vemos que Kris estava em uma ilha envolta em Solaris.

Curiosidades:
- Foi feito como sendo a resposta soviética a 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968).
- Stanislaw Lem foi um ensaísta, filósofo e autor de ficção científica polonês. Seus livros, construídos em torno de uma visão crítica do comportamento humano, foram traduzidos em quarenta línguas e vendidos a mais de 27 milhões de exemplares. A certa época foi o autor de ficção científica mais lido no mundo, fato raro para alguém que não escreve em inglês.

Sinopse: O famoso psiquiatra Kris Kelvin vai à estação espacial Solaris com uma importante missão científica. Ele deve decidir se o trabalho de investigação sobre um misterioso planeta continua ou não.

Premiações
- Ganhou o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio FIPRESCI, no Festival de Cannes.

Elenco: Natalya Bondarchuk (Hari) - Donatas Banionis (Kris Kelvin) - Jüri Järvet (Dr. Snaut) - Vladislav Dvorzhetsky (Berton) - Nikolai Grinko (Pai de Kelvin) - Anatoli Solonitsyn (Dr. Sartorius)

Ficha Técnica: Título Original: Solyaris - Gênero: Ficção Científica - Tempo de Duração: 165 minutos - Ano de Lançamento (União Soviética): 1972 - Estúdio: Unit Four / Mosfilm / Creative Unit of Writers & Cinema Workers - Distribuição: Sci-Fi Pictures Inc.- Direção: Andrei Tarkovsky - Roteiro: Andrei Tarkovsky e Fridrikh Gorenshtein, baseado em livro de Stanislaw Lem - Produção: Viacheslav Tarasov - Música: Eduard Artemyev - Fotografia: Vadim Yusov - Desenho de Produção: Mikhail Romadin - Figurino: Yelena Fomina - Edição: Lyudmila Feiginova e Nina Marcus - Efeitos Especiais: Mosfilm F/X Unit .
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