sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira (Blindness, EUA, 2008, 120 mins)
Minha cotação:
Por Wendell Borges - 26/12/2008

Comentário: Sei que é tarefa quase impossível não fazer comparações quanto às emoções e sensações obtidas com uma obra literária e uma adaptação para o audiovisual, entretanto tentei ao máximo refletir sobre ambas as experiências sem deixar que a sensação ao ler o livro influenciasse as sensações obtidas com o filme.

Acredito que a experiência de quem vê o filme de Fernando Meirelles sem jamais ter lido a obra de Saramago é bem diferente da experiência das pessoas que a leram. Não consegui disassociar totalmente esta parte emocional comparativa ao assistir o filme. Mas, esforçando-me para pensar sobre a linguagem do cinema e evitar as comparações com as sensações literárias, o saldo foi positivo para com a obra audiovisual.

Uma coisa que me vem à mente quando penso em questões sobre o emocional na obra de arte são as diferenças entre a profundidade psicológica que uma boa obra literária pode conceder a quem a lê de uma obra audiovisual.

O filme de Meirelles tem uma grande atriz em cena, Julianne Moore (1960), um diretor que consegue imprimir seu estilo aliado à uma boa equipe técnica, excelente fotografia do uruguaio César Charlone, direção de arte e efeitos especiais dignos de elogios. Enfim, Ensaio sobre a Cegueira é um bom filme, conseguiu causar a sensação angustiante e perturbadora através do trabalho sonoro e visual, mas está anos luz de atingir a densidade e profundidade psicológicas da obra literária.

Eu entendo que são linguagens que tem suas particularidades, um filme de duas horas não tem como gerar o mesmo efeito que uma grande obra literária gera na imaginação do leitor, mas comparando somente as sensações estéticas que ambas são capazes de provocar, a obra literária ainda é superior. O que faltou na obra de Meirelles foi um pouco mais de ousadia na questão do choque relativo à animalidade que a cegueira provocou nos seres ditos humanos que dividiam aquele espaço de confinamento em que foram jogados.

Falando um pouco sobre a trama do filme, uma cegueira começa a tomar conta das pessoas, mas não era uma cegueira comum, era uma cegueira branca, a ausência de luz provocava nas pessoas contaminadas um clarão ofuscante, diversas pessoas são confinadas em um local e tentam sobreviver e se adaptar às novas condições. Entre eles um médico oftalmologista interpretado por Mark Ruffalo, e sua esposa, papel da excelente atriz Julianne Moore, cuja cegueira não foi afetada. Ela tenta então sobreviver junto a seu marido em meio ao caos tomado pela desumanização dos cegos que ali se encontram. O roteiro foi escrito pelo canadense Don McKellar baseado na obra do escritor português José Saramago (1922).

Para finalizar o comentário, Ensaio sobre a cegueira dentro de suas propostas artísticas e comerciais consegue ficar acima da média de uma boa parte dos filmes comerciais que enchem as salas de cinema todos os anos, afinal o cinema está longe de sobreviver através de filmes de arte e a comunicação que o filme de Meirelles conseguiu ter com o público, acredito que não só o que compartilhou comigo a experiência de ver o filme, mas de outras platéias mundo afora, já é digno de elogios.

Obs: O Romance de Saramago O Ensaio sobre a cegueira foi lançado em 1995. Apenas em 1997 foi lançada uma versão em língua inglesa.

Elenco: Mark Ruffalo (Médico) - Julianne Moore (Esposa do médico) - Yusuke Iseya (Primeiro homem cego) - Yoshino Kimura (Esposa do primeiro homem cego) - Alice Braga (Garota com óculos escuros) - Don McKellar (Ladrão) - Maury Chaykin (Contador) - Danny Glover (Homem com venda preta no olho / Narrador) - Gael García Bernal (Rei de Ward 3) - Susan Coyne (Recepcionista) - Sandra Oh (Ministra da Saúde) - Billy Otis (Criminoso) - Joe Pingue (Motorista de táxi) - Douglas Silva (Pedestre) - César Brasil de Luna (Pedestre) - Alexandre Tigano (Pedestre)


Curiosidades [Fonte: Adorocinema]

- O produtor Niv Fichman teve interesse em adaptar o livro "Ensaio Sobre a Cegueira" para o cinema em 1999, quando ele e o roteirista Don McKellar viajaram às ilhas Canárias para conversar com o autor José Saramago. Uma das exigências feitas por Saramago para vender os direitos de adaptação é que no filme não fosse possível reconhecer em qual país a história se passa.
- Foi o filme de abertura do Festival de Cannes 2008.
- José Saramago foi convidado à première de Ensaio Sobre a Cegueira em Cannes, mas seus médicos o proibiram de viajar. Desta forma o diretor Fernando Meirelles foi até Lisboa para lhe mostrar o filme.
- O orçamento de Ensaio Sobre a Cegueira foi de US$ 25 milhões.

Sinopse:
Uma inédita e inexplicável epidemia de cegueira atinge uma cidade. Chamada de "cegueira branca", já que as pessoas atingidas apenas passam a ver uma superfície leitosa, a doença surge inicialmente em um homem no trânsito e, pouco a pouco, se espalha pelo país. À medida que os afetados são colocados em quarentena e os serviços oferecidos pelo Estado começam a falhar as pessoas passam a lutar por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. Nesta situação a única pessoa que ainda consegue enxergar é a mulher de um médico (Julianne Moore), que juntamente com um grupo de internos tenta encontrar a humanidade perdida.

Ficha Técnica: Título Original: Blindness - Gênero: Drama - Tempo de Duração: 120 minutos
Ano de Lançamento (Brasil / Canadá / Japão): 2008 - Site Oficial: www.ensaiosobreacegueirafilme.com.br - Estúdio: O2 Filmes / Rhombus Media / Bee Vine Pictures - Distribuição: 20th Century Fox Brasil / Miramax Films - Direção: Fernando Meirelles - Roteiro: Don McKellar, baseado em livro de José Saramago - Produção: Andrea Barata Ribeiro, Niv Fichman e Sonoko Sakai - Música: Marco Antônio Guimarães - Fotografia: César Charlone - Desenho de Produção: Matthew Davies e Tulé Peake - Direção de Arte: Joshu de Cartier - Figurino: Renée April - Edição: Daniel Rezende.
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2 comentários:

  1. Wendell, como vai? Eu não li o romance de José Saramago, mas acredito que a mídia literária e a audiovisual devem ser analizadas de maneiras isoladas, pois, como você disse, o que lemos é distinto daquilo que vemos, ainda que esta segunda seja uma encenação da primeira. De qualquer forma, acho que o filme teve falhas que prejudicaram demais o resultado final. Basta que há uma falta de transição entre os três atos do filme. Talvez se Meirelles não tivesse deixado se abater pela reação em exibições testes e em festivais de cinema ele, de fato, teria ousado muito mais.

    Excelente final de semana.

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  2. Também concordo que não se pode comparar as duas mídas - cinema e literatura - pois a linguagem de ambos podem ter semelhanças, mas são em suma distintos. E eu odiei a recepção fria da crítica quanto à esse excelente filme de Meirelles que, apesar de conter um ou outro equívoco, é uma obra muito bem realizada.

    Ciao!

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