domingo, 21 de dezembro de 2008

Morte em Veneza (Morte a Venezia, Itália,1971, 130 mins)
Minha cotação:
Por Wendell Borges: 21/12/2008

Comentário: Baseado na obra homônima do escritor alemão Thomas Mann (1875-1955) este belíssimo filme conta com a direção do mestre italiano Luchino Visconti (1906-1976), diretor de teatro e ópera, porta-voz da decadência social, ele é um daqueles artesãos perfeccionistas que com seu imenso conhecimento literário e estético a respeito da arte elaborou alguns dos mais consagrados filmes Italianos.

Apesar de ser considerado um Marxista e da reputação de neo-realista, Visconti não esconde a sua admiração pela arte burguesa européia a qual demonstra conhecer com profundidade retratando-a em seus filmes. Neste "Morte em Veneza" acompanhamos a estadia de um professor de música chamado Gustav Von Aschenbach, interpretado por Dirk Bogarde (1921-1999), na belíssima Veneza do ano de 1911. Como explica o próprio Visconti no pequeno curta "A Veneza de Visconti" contido nos extras do DVD, ele alterou a profissão do personagem de escritor para músico, pois para Visconti não importava a simples adaptação da obra, mas a recriação dela a partir de sua sensibilidade. Encontrou então no compositor austríaco Gustav Mahler (1860-1911) a trilha sonora e a profundidade artística para dar o clima sonoro e estético ideal para o filme. Morte em Veneza tem diálogos primorosos nos quais destaco abaixo um dos melhores momentos, em que Gustav discute com o amigo Alfred sobre a beleza artística:

- Então a seu ver, nosso trabalho, como artistas é... [Gustav]
- Trabalho, exatamente! Você acredita que a beleza possa ser mesmo fruto do trabalho? [Alfred] - Sim...sim, acredito.
- É assim que nasce a beleza. Assim, espontaneamente, indiferente ao seu trabalho e mente. Ela preexiste à nossa presunção de artistas. Seu grande erro, meu caro amigo, é considerar a vida, a realidade, como uma limitação.

- E ela não consiste nisso? A realidade apenas nos distrai e degrada. Sabe, às vezes penso que os artistas mais se parecem como caçadores que miram no escuro. Nem sabem qual é seu alvo, tampouco se o atingiram. Mas não se pode esperar que a vida ilumine o alvo e estabilize sua mira. A criação da beleza e da pureza é um ato espiritual.

- Não, Gustav. Não! A beleza pertence aos sentidos. Somente aos sentidos!
- Não é possível alcançar o espírito...Não é possível alcançar o espírito através do sentidos. É impossível. É somente através do absoluto controle dos sentidos que se pode, algum dia,alcançar a sabedoria, verdade e dignidade humana.
- Sabedoria? Dignidade Humana? Para que servem? O gênio é uma dádiva divina. Não! Não, não... uma aflição divina! Uma chama breve e pecaminosa e mórbida de dons naturais.

- Eu rejeito as virtudes demoníacas da arte.
- E isso é um erro! Está enganado, o mal é necessário. É o alimento da genialidade.
- Sabe, Alfred, a arte é a fonte mais elevada de educação e o artista tem que ser sempre exemplar. Deve ser um modelo de equilíbrio e força. Ele não pode ser ambíguo.
- Mas a arte é ambígua. E a música é a mais ambígua de todas as artes. É a ambiguidade transformada em ciência. Espere! Ouça este acorde... ou então este. Pode interpretá-las como desejar. Temos diante de nós uma série completa de combinações matemáticas imprevistas e inesgotáveis. Um paraíso de duplos sentidos com os quais você, mais do que ninguém diverte-se ruidosa e confortavelmente! [ como um boi no pasto - Na dublagem]



O roteiro foi escrito por Visconti contando com a colaboração de Nicola Badalucco e também com a ajuda da família de Thomas Mann. A música do compostior Gustav Mahler entra em sintonia total com a atmosfera do filme e da personagem de Aschenbach, que vê na beleza juvenil de Tadzio (Bjorn Andresen),um jovem polonês que chegara a veneza com a mãe e as irmãs, uma enigmática e angustiante sensação que se mistura com a tensão exercida pela descoberta da Cólera asiática que assolava a Itália e a Europa. Destaques também para o figurino de Piero Tosi e a fotografia de Pasqualino de Santis.


Curiosidade:
Boa parte da trama de Morte em Veneza ocorre no Hotel de Bains e na praia do Lido em Veneza, Itália.

Sinopse: Início do século XX. Gustav von Aschenbach (Dirk Bogarde) é um compositor austríaco que vai para Veneza buscando repouso, após um período de estresse artístico e pessoal. Porém ele não encontra a paz desejada, pois logo desenvolve uma paixão por um jovem, Tadzio (Björn Andrésen), que está em férias com sua família. Tadzio incorpora o ideal de beleza que von Aschenbach sempre imaginou e pensa em ir embora antes de cometer um ato impensado, mas sua bagagem foi para outra cidade, obrigando-o a permanecer ali. Além disto a cólera asiática começa a chegar em Veneza.

Premiações
- Recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Figurino.
- Ganhou 4 prêmios no BAFTA, nas categorias de Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator (Dirk Bogarde).
- Ganhou o Prêmio Bodil de Melhor Filme Europeu.
- Ganhou o Prêmio do 25º Aniversário, no Festival de Cannes.

Elenco: Dirk Bogarde (Gustav von Aschenbach) - Mark Burns (Alfred) - Marisa Berenson (Frau von Aschenbach) - Carole André (Esmeralda) - Björn Andrésen (Tadzio) - Silvana Mangano (Mãe de Tadzio) - Leslie French (Agente de viagem) - Nora Ricci (Governanta) - Romolo Valli (Gerente do hotel)

Ficha Técnica: Título Original: Morte a Venezia - Gênero: Drama - Tempo de Duração: 130 minutos - Ano de Lançamento (Itália): 1971 - Estúdio: Alfa Cinematografica - Distribuição: Warner Bros. Pictures - Direção: Luchino Visconti - Roteiro: Nicola Badalucco e Luchino Visconti, baseado em livro de Thomas Mann - Produção: Luchino Visconti - Fotografia: Pasqualino De Santis - Desenho de Produção: Nedo Azzini - Direção de Arte: Ferdinando Scarfiotti - Figurino: Piero Tosi - Edição: Ruggero Mastroianni.
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Um comentário:

  1. Tadeu1:12 PM

    Mais uma da minha lista de filmes que meenvergonham pelo fato de ainda não te - lo visto, embora já tenha lido o romance.

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