quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Nostalgia (Nostalghia, Itália/Russia, 1983, 125 mins)
Minha cotação: 1/2
Por Wendell Borges: 18/12/2008

Comentário: Nostalgia é o primeiro filme do diretor Andrei Tarkvosky (1932-1986) a ser filmado fora de sua terra natal, a Rússia, mas este ainda foi feito com aprovação oficial das autoridades cinematográficas russas antes de seu exílio no ocidente, ele ainda faria em 1986 durante seu exílio na Suécia o filme O Sacrifício, este que foi seu último trabalho antes de falecer de cancer do pulmão em 28 de dezembro de 1986.

Nostalgia é uma daquelas obras que de tão belas e espiritualizadas nos fazem pensar sobre as possibilidades do cinema em tornar-se o espaço ideal para uma nova dimensão espiritual do ser humano. De certa forma eu já o encaro assim, o cinema e os filmes de arte são para mim uma dimensão onde perdemos um pouco do materialismo que tanto nos sufoca e partimos para uma dimensão mais ampla, mais abstrata. O roteiro foi escrito pelo próprio Tarkovsky com a colaboração do italiano Tonino Guerra (1920).

A trama de Nostalgia gira em torno do poeta Andrei Gorchakov, papel do ator Oleg Yankovksy (1944), que está na Itália para pesquisar sobre a vida do músico Beryózovsky, um personagem histórico que foi enviado para a Itália por seu senhor para ampliar seus estudos em Música. Como narra o próprio Tarkovsky em sua obra-prima "Esculpir o Tempo", capítulo VIII, página 242: " Eu desejava fazer um filme sobre a nostalgia russa - a respeito daquele estado mental peculiar à nossa nação e que afeta os russos que estão longe de sua pátria. Encarei isso quase como um dever patriótico, segundo entendo o conceito. Queria que o filme fosse sobre o apego fatal dos russos às raízes nacionais, ao passado, à cultura, aos lugares onde nasceram, às famílias e aos amigos; um apego que carregam consigo por toda a vida, seja qual for o lugar em que o destino possa tê-los lançado. Os russo raramente são capazes de se adaptar com facilidade, de aceitar um novo estilo de vida. Toda a história da emigração russa corrobora a visão ocidental de que "os russos são péssimos emigrantes"; todos conhecem sua dramática incapacidade para serem assimiliados, e a ineficácia desajeitada dos seus esforços para adotar um estilo de vida diferente do seu. Como eu poderia imaginar, enquanto realizava Nostalgia, que a asfixiante sensação de saudade que impregnava este filme iria se tornar meu destino para o resto da vida, e que, até o fim dos meus dias, eu iria suportar dentro de mim mesmo essa grande angústia?

Embora trabalhando na Itália, fiz um filme que era profundamente russo em todos os seus aspectos: moral, política e emocionalmente. O filme é sobre um russo enviado à Itália numa longa missão de trabalho e sobre suas impressões do país. (...)

Outro trecho brilhante de "Esculpir o tempo", página 255: Quando a tela traz o mundo real para o espectador,o mundo como ele realmente é, de tal modo que possa ser visto em profundidade e a partir de todas as perspectivas, evocando seu próprio "cheiro", permitindo que o público sinta na pele sua umidade ou sua aridez - a impressão que temos é que o espectador perdeu a tal ponto sua capacidade de simplesmente entregar-se a uma impressão estética imediata, emocional, que, no mesmo instante, ele sente a necessidade de se deter e perguntar: " Por quê? Para quê? O que significa?" - Esta é também uma resposta de certa forma às perguntas feitas ao ator do porquê ele inclui imagens de árvores balançando ao vento, fogo e água, principalmente imagens de chuva. A resposta? Tarkovsky ama a natureza e se sente melhor em contato com ela, do que com o barulho das cidades e o cheiro do asfalto.

Em destaque no filme temos a atuação de Erland Josephson (1923), no papel de Domenico, um ex-professor de matemática revoltado com a situação a qual caminha a humanidade, taxado de louco pelas pessoas ele ajuda Gorchakov a encontrar seu caminho espiritual. E também a belíssima atriz italiana Domiziana Giordano (1959) no papel de Eugenia, ela acompanha Gorchakov durante alguns momentos até encontrar o amor de sua vida.

O filme é também uma homenagem à mãe de Tarkovsky, imagens estas que surgem no filme como lembranças da mãe do poeta Arseni Gorchakov, espécie de alterego de Tarkovsky. Um filme feito para aqueles que buscam um pouco de espiritualidade em meio às banalidades feitas aos montes nos dias atuais. Uma demonstração de amor à natureza e uma chamada à compreensão estética de uma obra que está impregnada do espírito de um grande artista. Ganhou dois prêmios no Festival de Cannes em 1983, Prêmio Internacional da Imprensa e de Criação Cinematográfica.






Domenico acende uma vela e contempla. [A visão enfraquecida]






Sinopse: Jornada mística do poeta russo Andrei Gorchakov à Itália em busca de um novo modo de vida. Depois de 3 meses viajando em companhia de Eugenia, uma atriz italiana, chegam a um pequeno vilarejo ao norte da Itália. Frustrado e deprimido por ainda não ter encontrado seu caminho, Gorchakov mergulha em seu passado, isolando-se em impenetrável silêncio. Mas ao encontrar Domenico (Erland Josephson - " O Rosto", "A Hora do Lobo", "Gritos e Susurros"), um velho lunático, assim chamado por seu estranho e solitário modo de viver, ele consegue compreender sua angústia e o segredo de sua própria Nostalgia. Primeiro filme feito fora da Rússia do cineasta e poeta Andrei Tarkovsky.

Ficha Técnica: Direção: Andrei Tarkovsky -Roteiro: Andrei Tarkovsky, Tonino Guerra - Gênero: Drama - Origem: Itália/Rússia - Duração: 125 minutos - Tipo: Longa.
_______________________________________________________________________________________

Nenhum comentário:

Postar um comentário