quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Espião que Sabia Demais
de Tomas Alfredson, Tinker Taylor Soldier Spy, França/Inglaterra/Alemanha, 2011, 127 min

Filme visto dia: 21/02/2012

Minha Cotação:


Comentário: [Análise Semiótica feita com base nos exemplos de análise dos vídeos propostos no livro Semiótica Aplicada de Lucia Santaella]

1. Conceitos semióticos básicos
Na definição de Peirce, o signo tem uma natureza triádica, ou seja, ele pode ser analisado:
  1. em sim mesmo, nas suas propriedades internas;
  2. na sua referência àquilo que ele indica, àquilo que sugere, designa ou interpreta; e
  3. nos tipos de interpretação que ele tem o potencial de despertar nos seus usuários.

2. Face da referência:

A face da referência diz respeito à relação do signo com aquilo que ele representa. O signo a ser analisado aqui em questão é o filme O Espião que Sabia Demais.

A face da referência tem dois aspectos: a) Qual é o referente do signo? A que o signo se refere? b) O aspecto que diz respeito ao modo como o referente está presente no signo.

2.1 Qual é o referente do signo?

O filme trata da questão da espionagem no âmbito da guerra fria durante os anos 70 no qual um espião inglês do alto escalão do MI6 (Serviço Secreto de Inteligência do Governo Britânico) é contatado para investigar a existência de um agente duplo na divisão conhecida como "Circo".

2.2 Como os referentes estão presentes no filme?

Há três propriedades que permite que algo, qualquer coisa, possa funcionar como signo: sua qualidade interna, o fato de que esse algo exista no mundo e uma lei de que ele é portador. Dessas três propriedades resultam três modos pelos quais os referentes estão presentes no filme: o modo qualitativo, o modo existencial e o modo genérico.

2.2.1 O Modo Qualitativo

A qualidade interna de uma linguagem é chamada de quali-signo. Como estamos analisando um filme observaremos então suas qualidades plásticas examinando de uma forma geral as tomadas, os enquadramentos, os movimentos de câmera, o tom do discurso que acompanha a imagem, figurino, trilha sonora, enfim, os elementos internos que caracterizam a obra audiovisual.

O diretor Tomas Alfredson e sua equipe técnica trabalham bastante durante o filme com enquadramentos belamente compostos no qual a câmera passeia lentamente em travelings e zooms muitas vezes passando a idéia de que os personagens estao sendo vigiados, filmados à espreita por alguém que os observa. O roteiro escrito por Bridget O'Connor e Peter Straughan foi baseado na obra homônima escrita pelo francês John le Carré (pseudónimo de David John Moore Cornwell), mas esta parte do discurso verbal será melhor explorada no aspecto simbólico na face da significação (ítem 3.3). A bela fotografia assinada por Hoyte van Hoytema trabalha com cores frias e opacas, passando ao espectador os sentimentos que a obra necessita, dando um tom melancólico à ação das personagens. E para fechar vale ressaltar a elegante trilha sonora assinada por Alberto Iglesias tendo como destaque a canção "La Mer" (composta por Charles Trenet) cantada por Julio Iglesias e as melancólicas músicas instrumentais como o tema que acompanha George Smiley, um dos personagens do filme.

2.2.2 O Modo Existencial

O filme O Espião que Sabia Demais foi produzido pela companhia Britânica Working Title Films e financiada pelo estúdio francês Studiocanal tendo sido lançado no 68º Festival Internacional de Veneza no dia 16 de setembro de 2011, local e data nas quais a produção teve o seu digamos, ato existencial concretizado após a produção. A duração do longa é de 127 minutos.

2.2.3 Modo Genérico

Por se tratar de um filme de espionagem o espectador pode pensar que em seu contexto haverá perseguições, explosões, tiroteios e coisas típicas de filmes populares do gênero thriller de espionagem como acontece nas séries 007 e na recente trilogia Bourne, mas as adaptações de obras do escritor John le Carré para o cinema resultam em filmes mais próximos da vida real dos verdadeiros espiões, fato este que se deve à experiência do escritor nos Serviços Secretos de Inteligência Britânicos, o MI6. Portanto, este thriller pende mais para o gênero dramático com toques de suspense e uma crescente atmosfera de mistério.

3. Face da Significação:

3.1 O aspecto Icônico

A trilha sonora em O Espião que Sabia Demais mantém uma estreita relação com a imagem cadenciando o ritmo impresso ao filme. E as várias tomadas em que o personagem de Gary Oldman fica sentado isolado e silencioso são representações que remetem à idéia da solidão ajudando desta forma a criar a atmosfera melancólica e também de mistério da obra.

3.2 O aspecto Indicial

A representação do filme em sua totalidade dramática e fictícia funciona como uma representação sin-sígnica da vida dos espiões durante a Guerra Fria e portanto remetem a situações que provavelmente ocorriam na realidade do contexto no qual o filme foi baseado.

3.3 O aspecto Simbólico

O filme é baseado na obra homônima escrita por John le Carré (pseudônimo de David John Moore Cornwell) e o roteiro foi escrito pela dupla Bridget O'Connor e Peter Straughan. Como se trata de uma adaptação de uma obra literária para uma obra áudiovisual, logicamente muito do texto literário precisa ser enxugado para caber no tempo da projeção do filme e a linguagem própria do cinema estabelece as escolhadas do diretor, dos roteiristas e da equipe de direção de arte, assim como o trabalho dos atores que na imagem transmitem por vezes com um simples olhar, algo que na obra literária precisaria ser narrado pelo autor para que o leitor pudesse captar.

4. Face da Interpretação:

4.1 O interpretante imediato

O interpretante imediato configura-se na figura de um interpretante abstrato, ainda não efetivado, no qual o signo em questão ainda não provocou o processo de significação e interpretação, portanto o que se pressupõe é que o público destinado ao filme seja o público afeito aos filmes de Mistério e Suspense, com a ressalva de que o mesmo não conterá cenas de ação descerebradas típicas dos filmes comerciais e poderá não agradar o espectador que busca um cinema de entretenimento escapista.

4.2 O interpretante dinâmico

4.2.1 A Emoção e os Sentimentos [Efeito emocional]

Como se trata da adaptação de uma obra do escritor John Le Carré ( pseudônimo de David John Moore Cornwell), de antemão já se pode pressupor que o filme terá ênfase na humanidade dos personagens e nos conflitos políticos e morais mostrados de uma forma mais complexa. É neste universo que os personagens irão conversar de forma a provocar no espectador um misto de confusão, desnorteamento, dúvida e irá forçar o pensamento a buscar uma compreensão do emaranhado de códigos visuais e linguísticos ali expostos. Há também um misto de melancolia exautado pela persona do personagem George Smiley e pela trilha sonora.

4.2.2 A Energia da Ação [Efeito energético]

O filme provoca uma reação ativa no espectador, quando este realiza um certo esforço, que pode ser físico, mas, muitas vezes, é também um esforço intelectual. O filme portanto propõe ao espectador refletir sobre a turbulenta e angustiante vida dos que se propõe a viver no complexo mundo da espionagem e também mostrar uma faceta do contexto da guerra fria, período histórico no qual ficou conhecido o embate de conflitos sociais, econômicos e ideológicos entre EUA e a ex-URSS. Período este que durou do final da segunda guerra mundial em 1945 até o desmembramento da União Soviética em 1991.

4.2.3 O Conhecimento e a Reflexão [Efeito lógico]

O filme em si não trabalha de forma didática, a época recriada de forma fictícia na qual a ação da narrativa acontece é reconhecida pelo espectador devido a observações do figurino e das locações, mas este desperta o interesse no espectador de conhecer um pouco mais sobre o contexto sócio-político da época da Guerra Fria.

4.3 O interpretante final

Quando levada suficientemente longe, a interpretação da obra O Espião que Sabia Demais tem além do efeito catártico de levar o espectador a ser um observador da complexa rede de intrigas do mundo da espionagem fazendo-o refletir sobre este mundo em particular, poderá despertar no espectador um desejo de compreender ainda mais o contexto histórico que ficou conhecido como a guerra fria.

Bibliografia

SANTAELLA, Lucia. São Paulo: Cencage Learning,2008.


ELENCO
Gary Oldman como George Smiley
Colin Firth como Bill Haydon
Tom Hardy como Ricki Tarr
John Hurt como Controle
Toby Jones como Percy Alleline
Mark Strong como Jim Prideaux
Benedict Cumberbatch como Peter Guillam
Cierán Hinds como Roy Bland
David Dencik como Toby Esterhase
Stephen Graham como Jerry Westerby
Simon McBurney como Oliver Lacon
Svetlana Khodchenkova como Irina
Kathy Burke como Connie Sachs
Roger Lloyd-Pack como Mendel
Christian McKay como Mackelvore
Konstantin Khabensky como Polyakov




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